DM Revista | 05 de Setembro de 2008 | Edição nº 7609
Da Agência O Globo, do Rio de Janeiro
Zé do Caixão terá um desafio dos diabos pela frente a partir de amanhã, quando Encarnação do Demônio entrar em cartaz: provar que outro filme brasileiro, além de Meu nome não é Johnny, pode ultrapassar a casa do milhão de espectadores em 2008. Sem lançar longas-metragens desde 1987, José Mojica Marins, o diretor por trás do demônio, enfrenta um mercado exibidor diferente daquele da época em que À meia-noite levarei sua alma (1964) e Esta noite encarnarei no teu cadáver (1966), os dois primeiros capítulos da trilogia estrelada por seu coveiro de unhas grandes, formavam filas nos cinemas.
“Nunca tive um lançamento nacional na vida antes. Encarnação do Demônio chega com 40 cópias. Antes, meu maior lançamento foi com dez cópias”, diz Mojica, 72 anos, em um misto de euforia e ansiedade.
Entre os analistas de mercado, não existem juízos absolutos em torno do filme.
“Os resultados das pré-estréias não foram lá grande coisa. Mas esse filme é o revival de uma marca cultuada. No passado, Mojica atingia tanto um público mais cult quanto a platéia das matinês da Cinelândia”, diz Paulo Sérgio Almeida, da Filme B, site que vistoria o mercado audiovisual no País.
Centrado na luta de Zé do Caixão para conseguir uma mulher “superior”, capaz de lhe dar um filho, retomada após os 40 anos em que ele mofou na cadeia, Encarnação do Demônio custou R$ 1,8 milhão, um valor astronômico se comparado aos velhos trabalhos de Mojica.
“Nos meus primeiros filmes, cheguei a vender a casa onde morava para arrumar dinheiro. Filmava em 13 dias, sem poder repetir cenas, pois tinha um número de latas contado. E a equipe, estranhando o tipo de filme que eu fazia, cobrava por dia, de véspera”, lembra o diretor, que teve seu Encarnação do Demônio ovacionado no último dia 29, na sessão hors-concours, no 65º Festival de Veneza.
Desafio
Apesar da forte expectativa causada pelo filme, Mojica desta vez vai lidar com forças que, em 51 anos de carreira, jamais enfrentou. Cria da era das grandes salas de exibição de rua, quando as classes C e D punham em prática o bordão “Cinema é a maior diversão”, o cineasta diz não saber o que o público dos shoppings espera de sua estética udigrúdi.
“Saber que eu estou chegando em cinemas de shopping me assusta. Minhas fitas sempre foram para o povão. E, para esse público, o ingresso de shopping é caro”, diz Mojica.
Seu maior sucesso, segundo números registrados pela Agência Nacional do Cinema (Ancine), é A virgem e o machão, de 1974. Comédia erótica, a produção, que o diretor rodou sob o pseudônimo de J. Avellar, foi vista por 1.315.651 brasileiros, de acordo com os borderôs do circuito exibidor, que, segundo produtores, atravessou a década de 1970 arredondando para menos (ou muito menos) os resultados. Ainda em 1974, Mojica emplacou um de seus maiores êxitos como Zé do Caixão: O exorcismo negro, que atraiu 613.488 espectadores.
O louvável desempenho que Mojica alcançou com Zé do Caixão nos anos 1960 e 1970 nos cinemas de subúrbio e do interior motivou comparações entre ele e um recordista nacional: Amácio Mazzaropi (1912-1981), ator que, entre 1970 e 1975, manteve a média de três milhões de pagantes por filme. Daí vingou a lenda que dizia que só com a renda do cinema de sua cidade natal, Taubaté, Mazzaropi zerava as contas de seus longas.
“Cheguei a propor sociedade a Mazzaropi em um projeto, e ele topou. Ficou animado em fazer uma comédia ao lado do Zé do Caixão. Mas aí ele me deu um conselho: ‘Mojica, você tem uma marca forte no terror. Se entrar com essa marca, que é o Zé do Caixão, numa sátira, você vai se queimar’”, diz Mojica, que vê uma alternativa para a crise audiovisual brasileira. “Os cineclubes voltaram a ser uma saída para formar público. Partindo deles, a gente chega na juventude. É um caminho.”


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