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Opinião | 05 de Setembro de 2008 | Edição nº 7609

Escanteio

Modesto Gomes
é escritor, juiz aposentado e presidente da Academia Goiana de Letras

Pois é, doutor, o senhor mandou me chamar e eu vim logo, que não sou sujeito de esconder o leite sem motivo. Comigo, se o senhor quer saber, não tem esse troço de comer amanhecido. É assim: autoridade falou, água parou. Obedeço em tudo, ninguém respeita a lei mais do que eu. Nada de meter o pé na cumbuca.

Estou aqui e quero dizer que, graças a Deus, não tenho coisa alguma pra esconder. O senhor vai conferir que minha vida é um livro aberto.

Percebo que o senhor quer saber de tudo. Vou dizer o que quiser que eu diga. Agora, já posso dizer tudo; não estou sentindo mais aquele doído aperto no coração. E foi por causa dele que fugi, que não assumi a responsabilidade de enfrentar as dificuldades. Já sou cabra de idade, como o senhor está vendo, mas ainda agüento o repinicado da viola; que estou cansado de saber com quantos paus se faz uma canoa.

Doutor: eu morava com a mulher há coisa de uns dez anos. Apareceu me dizendo que precisava de um encosto, que não desejava levar vida de mulher de rua, de rapariga sem-vergonha que vive bolindo com tudo quanto é homem que encontra. Tinha deixado o marido, que batia nela sempre e que ela já não estava mais suportando levar bordoada todo santo dia. Disseram pra ela – segundo fez questão de me dizer – que eu era homem de preceito; e aí foi falar comigo, me pedindo que lhe desse o encosto. Sabia lavar, passar, que cozinhava como mulher de pensão; que sabia fazer agrados diversos, que podia me atender na cama no momento exato em que eu tivesse meus apetites.

Poderia haver coisa melhor, doutor? Eu, já viúvo, ficava enfurnado na minha casinha, sem filhos pra alegrar meus cinqüenta e poucos janeiros. Ela, com menos de quarenta – cabrocha capaz de virar a cabeça de muita gente –, tinha saúde pra dar e vender. Como eu dispensaria dona de tantos predicados? Só se fosse besta – e eu achava que não o era.

Então, no sufragante da proposta, aceitei o oferecimento dela, que passou a ter lugar na minha cama e no meu coração. Afinal de contas, doutor, eu ainda possuía ilusões: precisava mesmo ter em minha companhia mulher forte pra enfrentar comigo as minhas noites de pobreza.

Quase dez anos de felicidade, doutor, quase dez anos. Confesso: fiquei tão enrabichado por ela, tão preso aos seus rudes encantos, que nem passava pela minha cabeça que ela pudesse me dar o cano e me jogar pra escanteio.

Nem sei se cheguei a ter desconfiança, mas achei, sem possuir certeza, que um vizinho lançava melosos olhares pra minha companheira. Em todo caso, coloquei a barba de molho, em verdade não sou de ontem.

Uma manhã, quando acordei – e era muito cedo –, ela não se encontrava ao meu lado. Pensei que estivesse fazendo café. Mas não encontrei ela na cozinha. Rumei para a casa do vizinho que costumava dirigir a ela os melosos olhares. A porta se achava aberta; e os dois lá dentro, deitados, num agarramento que me deixou de cabeça inchada. Parti pra eles. O cara deu no pé e ela quis também dar o fora, mas matei a danada com uma foice; e mesmo assim a paixão não acabou, tanto que dormi ao lado do corpo dela, mesmo morando nele a cor da morte.

Modesto Gomes
é escritor, juiz aposentado e presidente da Academia Goiana de Letras. Escreve às sextas-feiras neste espaço

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