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Opinião | 05 de Setembro de 2008 | Edição nº 7609

Valores desaparecidos

Eugenio César da Silva
Eugênio César tem 48 anos, é pai de um garotinho de 2 anos e uma menininha de 8 meses, que sonha com uma vida melhor para seus filhos. Gerente de Informações Econômico-Fiscais da Secretaria da Fazenda

Esta é a realidade a qual estamos convivendo. Há um bom tempo nossos valores encontram-se perdidos e, mesmo no mundo capitalista em que vivemos, se oferecêssemos uma recompensa de tal monta, não conseguiríamos, na atual conjuntura, encontrá-los.

O motivo? Nossa cegueira. Como diz o ditado popular, “pior cego é aquele que enxerga, mas não consegue ver um palmo a frente”.

Flashes da violência

u Jovens de classe média alta, inclusive um menor, são acusados de praticar assalto à mão armada;

u Empresária Silvia Calabresi Lima, 42, tortura e mantém em cárcere privado menina de 12 anos de idade;

u Mohammed D’Ali Carvalho dos Santos, 20, que tinha uma vida de rei em Goiânia (recebia R$ 2 mil por mês da mãe e não trabalhava), mata e esquarteja inglesa Cara Marie Burke;

u Casal Nardoni (pai e madrasta), de classe média, é apontado como principal responsável pela morte de Isabela Nardoni, arremessada do sexto andar de um prédio;

u Briga por tráfico de drogas deixa dois mortos em Parnamirim em menos de 12 horas;

u Oito pessoas foram presas pela Polícia Federal acusadas de pedofilia. Entre os detidos pela Operação Arcanjo, deflagrada em Roraima, está o procurador-geral do Estado, Luciano Alves de Queiroz, um major da Polícia Militar, um funcionário do Tribunal Regional Eleitoral, além de dois empresários e um casal que teria aliciado a própria filha;
u Decisão do Supremo Tribunal Federal libera os chamados “fichas-sujas” para concorrerem às eleições;

u Morre filho de empresário goiano, também empresário, Pedro Henrique Paranaíba de Oliveira, 22, conhecido como Pedro Lagoinha, ao se jogar do 8° andar do prédio onde morava, localizado na Alameda das Rosas, no Setor Oeste.

u Três tiros no rosto acabaram com a vida do empresário e estudante, filho de tradicional família goiana, Túlio Jayme, 52. Ele foi alvejado na Rua 8-A, Setor Oeste, em frente ao edifício Porto Rico, considerado de classe média, na região nobre da Capital.

u E muitos tantos, a cada segundo, mundo afora.

O triste de tudo isto é que nós, humanos, internalizamos esses violentos acontecimentos como mais um dos corriqueiros e cotidianos. Estamos tão acostumados a ouvir e assistir tais barbáries que em nosso subconsciente passamos a contabilizá-los como mais um de muitos divulgados ou até mesmo omitidos, sem tomarmos conta de que somos nós os culpados desta realidade. Realidade gerada pela distorção e distanciamento que estamos dando aos reais valores humanos. Ao depararmos com tais fatos, quando muito indignamos, pois em nossas mentes inconscientemente as excluímos de nossa responsabilidade e culpabilidade, pois o ocorrido foi “no vizinho do lado” e isto não é nosso problema. Será mesmo?

Esta triste realidade é denunciada corriqueiramente nas dinâmicas de grupo em que os participantes, visando à integração, o conhecimento mútuo e o início de uma relação interpessoal, geralmente são indagados de suas maiores qualidades e sempre nas respostas, quando nós mesmos não respondemos, ouvimos da maioria dos participantes...

“minha maior qualidade é Honestidade, Sinceridade e Respeito”.

Ora, ao qualificarmos tais substantivos como qualidades, inconscientemente estamos desqualificando-os como valores humanos fundamentais, ou seja, estes deixaram de ser uma obrigação e passaram a ser um adjetivo do ser humano. Honestidade, Sinceridade e Respeito não são qualidades, são obrigações. Se assim internalizarmos em nosso subconsciente, com certeza daremos um passo importantíssimo para reencontrarmos nossos valores.

Segundo a psicóloga Patrícia Barbosa Rodrigues, “vivemos em uma era violenta; sofremos violências cada vez maiores e com mais constância; assistimos quotidianamente manifestações de violência... a violência entra em nossas casas, muda nossa vida, nossos valores, nossas famílias, nossos comportamentos.

A violência é um sinal, um sintoma de uma sociedade que não criou apreço pelos valores e acabou formando adultos sem referenciais de cidadania e de respeito pelo próximo. A violência é a marca de uma sociedade excludente (que exclui em todos os sentidos, até afetivos)”.

Valores não são commodities. Com muita propriedade, Patrícia Rodrigues diagnostica uma das causas de nosso mundo violento, a falta de apreço pelos valores. Lembremos que os bandidos de hoje são reflexos da criação que demos a nossas crianças ontem.

Se voltarmos aos relatos de violência apresentados, veremos que todos eles se referem a famílias de classe média e alta. Estes relatos foram propositais, pois nós, privilegiados socialmente, achávamos que tais fatos só aconteciam nas classes baixas; engano nosso: a violência é universal, ela não tem classe social. O mais preocupante é que ela vem aumentando de forma alarmante também nas classes sociais mais privilegiadas. Estamos tratando valores como commodities, achamos, equivocadamente, que os mesmos podem ser adquiridos facilmente nas melhores escolas. Estamos transferindo a criação de nossos filhos para terceiros e suprindo nossa ausência com conforto e bens duráveis. Nós, humanos, mais do que bens e conforto, necessitamos de carinho, dedicação, amor, religião e convívio familiar. Hoje, a família e a religião estão renegadas.


Família
Será que nós, pais, estamos mantendo um comportamento conjugal e familiar digno e coerente para a formação de nossos filhos?

Religião
Ao término de uma missa deparei-me com um diálogo, entre duas idosas, muito simples, mas extremamente relevante
...
“– Olá, trazendo o netinho para rezar?
– você não acha difícil trazê-lo à missa?
– É bem mais fácil entrar com meu netinho na igreja hoje do que tirá-lo futuramente de uma prisão.”

O resgate à família e ao cristianismo são fundamentais para reencontrarmos a cidadania e nossos valores.

Receita do resgate

“Sathia Sai Baba, indiano (Mesquita, 2003), prega insistentemente o resgate dos valores humanos básicos, a verdade, a retidão, a paz, o amor e a não-violência. Segundo ele, devemos estimular esses valores em nossas crianças. Ele afirma que, à medida que as crianças forem utilizando a intensa capacidade amorosa existente nelas, germinarão os valores humanos em seu coração, o que se refletirá no comportamento familiar, social e profissional. Independentemente de dificuldades, sofrimentos e decepções que, como todo ser humano, ela encontrar em sua trajetória sobre a Terra, será feliz. Porque felicidade, afinal, não é estar radiante de alegria e de bom humor diariamente, mas permanecer em harmonia com sua natureza humana. As leis da natureza humana só serão cumpridas quando conseguirmos ser leais à verdade, o que nos levará à retidão, à qual nos proporcionará a paz. Estando em paz, torna-se possível para nós viver e entender o verdadeiro amor incondicional. Com esses valores aflorados, somos capazes de praticar a não-violência, que é a abstenção de ferir o outro pelo pensamento, palavra ou ação. Quanto antes começarmos, melhor e mais fácil.”


Eugênio César tem 48 anos, é pai de um garotinho de 2 anos e uma menininha de 8 meses, que sonha com uma vida melhor para seus filhos. Gerente de Informações Econômico-Fiscais da Secretaria da Fazenda do Estado de Goiás

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