Opinião | 05 de Setembro de 2008 | Edição nº 7609
Ubirajara Galli
é escritor. Membro da Academia Goiana de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás
A Picada dos Goyazes ou Estrada dos Goyazes, responsável pela entrada de aventureiros e saída de riquezas das minas coloniais goianas e que provocou ao longo do seu leito o surgimento de várias cidades paulistas, mineiras e goianas, cuja paternidade maior é atribuída ao Anhangüera, Filho, foi palco revelador da pobreza que se abateu sobre a descendência do Bandeirante, que, pobre, também morreu em 1740, em Vila Boa, cidade de Goiás, por volta dos seus 85 anos de idade.
José Martins Pereira de Alencastre, governador da Província de Goiás no período de 21/04/1861 a 26/06/1862, publicou, em 1863, o livro Anais da Província de Goiás, cujas páginas registram, entre outros assuntos importantes da memória histórica goiana, um acontecimento acidental e nem por isso menos significativo para os estudiosos desses torrões.
Quando Alencastre, em sua viagem de retorno a São Paulo, ocorrida provavelmente no mês de julho de 1862, num dos pontos de pouso da Estrada dos Goyazes, que acredito ser o de Jundiaí, teve aí o fortuito encontro com uma família cuja miserabilidade humana envolvia-os sem piedade.
As crianças do casal, em número de três, relata o escritor, eram belíssimas, contrastando com a pérfida miséria dos seus trajes e parcos pertences, arrastados por três animais. Arranchados neste pouso, onde o “luxo” não permitia convenções sociais, acabou por suscitar diálogo entre Alencastre e o pai dos rebentos. O miserável, a cada meia palavra, blasfemava contra a sua sorte. Entre uma e outra pedrada no destino, contou que eles estavam se dirigindo para Araraquara (futura cidade paulista) tentar uma melhor vida.
Dessa conversa, uma revelação estarrecedora fez se ouvir do homem: ele era nada mais, nada menos que filho legítimo de Bartolomeu Bueno de Campos Leme e Gusmão. Descendente direto da quinta geração de Bartolomeu Bueno da Silva.
Na verdade, ele não era filho legítimo, e sim um filho natural. Uma vez que ele tivera três filhos que resultaram do consórcio com Ana Teixeira da Mota, falecida em 1809, no Porto do Corumbá. São seus filhos legítimos: Maria Pulcina Bueno, nascida em 1798, Mariana Fausta Bueno, nascida em 1804, e Bartolomeu Bueno da Câmara, nascido em 1806. Esse seu único filho, acometido de impaludismo, morreu em 1833.
Quanto ao filho que narra Alencastre, só pode ter sido ele um rebento natural. Sendo que o coronel Bueno, logo após a morte da sua mulher, em 1809, mudou-se para a Capitania de São Paulo, onde permaneceu até a sua morte, por volta de 1825. Nada de causar espanto a possibilidade dele ter constituído uma nova família.
Certa indignação desse encontro percebe-se na narrativa do autor.
Porém, não se sabe se, por humildade ou por desprendimento, ele não menciona qualquer ajuda prestada à indigente família do tetraneto do Anhangüera, Filho.
É irreverente pensar ou quem sabe constrangedor para os confrontantes desse encontro, principalmente para o descendente do Bueno, que passados 140 anos, essa estrada que fora pisoteada pelas botas do seu tetravô, de onde soergueriam pousos, arraiais, vilas e futuras cidades, reservaria este encontro inusitado, com o nobre representante do imperador Pedro II.
O lado ruim da história pessoal do jovem Alencastre e do conceituadíssimo intelectual fica por conta da sua saída do governo de Goiás, quando ele colocou debaixo dos braços importantes documentos da história de Goiás, que estavam sob o cuidado do Arquivo Histórico do Estado, e os levou consigo, para nunca mais voltarem. O seqüestro talvez tenha se dado por falta de tempo para escrever o livro dos Anais, devido a sua curta permanência frente ao governo goiano. Ainda bem que ele escreveu o livro.
Ubirajara Galli é escritor e membro da Academia Goiana de Letras e do Instituto Histórico
e Geográfico de Goiás



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