Opinião | 05 de Setembro de 2008 | Edição nº 7609
Fleurymar de Souza
jornalista. Foi editor político dos jornais Diário da Manhã e O Popular e escreve no blog fleurymar.blogspot.com
Os temas Saúde pública e transporte coletivo, e seu corolário, o caos no trânsito, constituem bandeiras caras à massa do eleitorado e devem ocupar maior espaço no debate e nas preocupações dos candidatos a prefeito de Goiânia e Aparecida, por óbvias razões. Quando a União decidiu transferir para as prefeituras a maior parcela de responsabilidade para com a Saúde pública, era notória a transferência de responsabilidade, acoplada ao ato de lavar as mãos do governo federal. Com o compromisso de transferir parcelas de recursos correspondentes aos gastos das administrações municipais com a Saúde, o governo fortaleceu-se politicamente por colocar sob sua dependência os prefeitos. Já se sabe sobejamente que o governo federal é expert em centralização de recursos e extremamente comedido na transferência de suas obrigações, sujeitando-se tudo, a despeito dos ditames constitucionais, à sua vontade e conveniência política.
Quanto ao transporte coletivo, desconheço os mecanismos de financiamento da compra de novos ônibus, mas o descompasso persistente entre a demanda de usuários e a disponibilidade da frota é decorrência de uma anterior política paternalista do governo da União. Através do BNDES, dava-se aos empresários do setor fartos financiamentos a juros civilizados, sem exigir a contrapartida de se colocar o público usuário como fim. O resultado foi o acúmulo de problemas, tendo em vista que o governo agia numa ponta, enriquecendo os exploradores dos serviços de transporte coletivo, relegando o usuário em plano secundário.
Nenhum argumento do empresário do setor é capaz de desmentir esse fato pela razão objetiva de que eles vão às últimas conseqüências para não perderem as concessões, ou seja, por mais que se debata a problemática do transporte coletivo, rigorosamente deficiente, ninguém, dentre os empresários, se dispõe a mudar de ramo, abandonando o setor. É inócua a observação de que nenhum empresário se lança à empreitada sem a perspectiva de lucros, mas tornar menos dramática a vida do usuário tem de ser um compromisso indelegável de quem entrou no ramo. Fazer investimentos em outros setores tornou-se uma prática comum de quem explora o serviço, o que implica concluir que, houvesse mais respeito à população que depende dos ônibus a situação não estaria assim tão dramática.
Portanto, incrementar o debate em torno de dois temas tão caros às faixas populares mais carentes é um bom indício de que a campanha eleitoral estará se esforçando para parecer coisa séria e assim despertar melhor a atenção do eleitorado. Quanto ao caos no trânsito, o prefeito Iris Rezende tem se esforçado para eliminar os pontos de estrangulamento. Tenta, às vezes, chegar com a solução antes de o problema se agravar, tornando-se insolúvel.
Porém, tudo tende a se complicar ainda mais pelo desordenado crescimento da cidade e pelo volume de vendas de veículos novos. Os dois temas aqui abordados, pelos vícios de origem, são emblemáticos. O mais sensato, ante os fatos incontroláveis próprios da voracidade urbana, é que todos nós compreendamos que nem sempre os governantes resolvem nossos problemas. São fartas as evidências de que, muitas vezes, o governante é que é o problema.
Fleurymar de Souza é
editor de Opinião



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