Opinião | 05 de Setembro de 2008 | Edição nº 7609
Prof. Antônio Ribeiro Lima Júnior (professor Toninho)
atual secretário municipal do Trabalho, Emprego e Renda de Goiânia
“Josué é uma das pessoas que eu mais admirei. Eu digo mesmo que Josué é o homem mais inteligente e mais brilhante que eu conheci.” “...me dava uma inveja enorme – Josué era brilhante em todas as línguas... Incrível!” “... mas isso do intelectual mais eminente do País, a figura mais importante do território brasileiro, a mais visível... esse, ser levado à morte em tristeza, querendo vir...” Darcy Ribeiro.
Se estivesse vivo, aos 5 dias de setembro deste ano, um ilustre intelectual e ativista brasileiro chamado Josué Apolônio de Castro (1908-1973) faria 100 anos de vida produtiva. Desconhecido do grande público, sua memória será alvo de uma homenagem histórica nesta mesma data em Recife, Pernambuco, com a presença de autoridades nacionais e internacionais, entre eles, o presidente Lula.
Médico, professor, geógrafo, sociólogo, escritor, político e intelectual, Josué de Castro fez da luta contra a fome e suas conseqüências na saúde do trabalhador a sua bandeira de vida. Este admirável nordestino, ainda menino, iniciou sua luta observando as terríveis condições de trabalho dos catadores de caranguejos dos mangues de Recife. É dele a seguinte observação: “As pessoas que vivem naquelas áreas e sobrevivem trabalhando na pesca do caranguejo, acabam se tornando ‘irmãos de leite’ desse anfíbio.”
Em 1946 se tornaria referência mundial no assunto e um dos maiores estudiosos sobre as causas da miséria no Brasil, tendo seu nome indicado para o Prêmio Nobel da Paz por três vezes. Algumas de suas obras como: Alimentação e raça (1936); Documentário do Nordeste (1937); A alimentação brasileira à luz da geografia humana (1937); Geografia da fome (1946); Geopolítica da fome (1951); O livro negro da fome (1960); Sete palmos de terra e um caixão (1965); Homens e caranguejos (1967); A explosão demográfica e a fome no mundo (1968), lamentavelmente ainda muito atuais, são alvo de estudos traduzidos em 27 línguas no mundo todo. Quando em vida, ousava dizer em tom de seriedade que temia que suas obras se tornassem “clássicos”.
Trabalhista histórico, foi eleito deputado federal por Pernambuco e exerceu a presidência da Organização para Alimentação e Agricultura das Nações Unidas(FAO) entre 1952 e 1956.
Embaixador do Brasil na ONU, em Genebra, entre 1962 e 1964, sua luta contra o latifúndio improdutivo e a implantação de uma reforma agrária como soluções para o problema da fome no Brasil lhe valeram a ira dos militares no período ditatorial. Cassado pelo Ato Institucional nº 1, exilou-se na França e veio a falecer em 1973, em profunda tristeza, ainda proibido pela repressão de retornar ao Brasil.
A enorme contribuição de Josué de Castro ao mundo do trabalho veio através do mapeamento das causas da fome e suas conseqüências na força produtiva brasileira. Como médico, mostrou tecnicamente as carências nutricionais existentes em cada região do Brasil e os desastrosos traumas a serem superados no mundo do trabalho. Mostrou cientificamente aos chefes de Estado da ONU a necessidade de uma ordem social mais justa e racionalmente produtiva.
Denunciou as graves agressões ao organismo humano, conseqüência da falta de nutrientes necessários ao desenvolvimento físico e cognitivo. Mostrou que subseqüentes gerações de subnutridos formam um exército de trabalhadores sem qualquer chance de desempenho e ingresso ao mercado de trabalho. A falta de alimentação adequada afeta o desenvolvimento cerebral e causa transtornos muitas vezes irreversíveis, transformando trabalhadores em deficientes mentais e levando à conseqüente queda na produtividade, vítimas do terrível círculo vicioso da fome. O crescimento pessoal do trabalhador fica assim afetado não só no seu desenvolvimento físico e locomotor, como também na capacidade de aprendizagem. Segundo Josué de Castro, a condição de enormes contingentes humanos que se tornam improdutivos por não conseguirem se alimentar adequadamente, e, conseqüentemente, não poderem adquirir alimentos por terem se tornado improdutivos, é uma ameaça constante para toda a humanidade.
“O caminho para a salvação do mundo deve consistir em facilitar progressivamente sua reestruturação econômica e social a partir de princípios mais humanitários – princípios que coloquem o homem como o centro do pensamento e do interesse social. Desta forma, será possível utilizar racionalmente os inúmeros recursos naturais ainda inexplorados e obter alimentos para acalmar a fome de toda a humanidade”. Um trabalho voltado para a Paz, Josué de Castro.
A obra de Josué de Castro inspirou programas como o Fome Zero e influenciou pessoas como o sociólogo Betinho ao fundar a Ação da Cidadania contra a Miséria e Pela Vida. A releitura de suas obras é tarefa imprescindível para empresários e trabalhadores. Uma justa homenagem será feita a um patriota brasileiro perseguido e condenado injustamente pelo Golpe Militar de 64, cujo o único e derradeiro “crime” foi pensar e agir por um Brasil melhor para todos.
Antônio Ribeiro Lima Júnior, o Professor Toninho, é secretário municipal do Trabalho, Emprego
e Renda de Goiânia secretariosetrab@gmail.com


