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Opinião | 05 de Setembro de 2008 | Edição nº 7609

Meu filho e o aquecimento global

Da Redação

Dia desses, meu filho, João, 9 anos, começou a apresentar um comportamento estranho. Parecia preocupado, inquieto. Por noites seguidas, perdeu o sono e inventava desculpas para vagar pelo quarto durante a madrugada. Na escola, começou a apresentar um semblante mais fechado, diferentemente do rosto feliz e popular com o qual já se acostumaram colegas e professores. Até a coordenadora percebeu a diferença e, num telefonema, mostrou-se preocupada com a situação. Para piorar, João começou a apresentar sintomas físicos, como enjôo e dor de cabeça. Havíamos feito vários exames dias antes e, por isso, não me preocupei tanto. Imaginei, então, que toda aquela mudança poderia ter um fundo emocional. Por vezes, a própria pediatra aconselhou acompanhamento, visto que o menino, ainda tão novinho, apresentava preocupações e senso de responsabilidade incomum para uma criança de sua idade.

Inconformada com a situação, procurei maneiras disfarçadas de encontrar respostas. Depois de algumas tentativas frustradas, na esperança de descobrir o que o afligia, fui direto ao ponto: “João, o que você tem? Está com algum problema?”, indaguei em tom carinhoso, me esforçando para transmitir segurança. “Pode falar. Não precisa esconder nada e nem ficar com medo de bronca”, completei. Sabia que me falaria a verdade, visto que sempre fomos muito claros um com o outro, sem segredos ou censura. Às vezes, até me acho responsável pelo seu comportamento pouco infantil. Sem titubear, ele respondeu: “Nada, mamãe. Só estou com um pouco de medo”, disse baixinho. Tentando manter o tom de naturalidade, questionei: “Medo de quê?”. Como não poderia deixar de ser, ele me retribuiu com uma pérola inesperada: “Medo do aquecimento global”, resumiu.

Uma mistura de orgulho e confusão tomou conta de mim. Perdida em meio a uma resposta tão simples, mas, ao mesmo tempo, embasada em um tema tão complexo, me calei por uns segundos e, depois, tentei discutir o assunto da forma mais natural possível. Disse pra ele não se preocupar porque os efeitos reais do aquecimento ainda demorariam muitos anos para aparecer. Em outras palavras, tapei o sol com a peneira. Após trocarmos algumas palavras, senti que ele ficou mais tranqüilo. Desde então, não tocou mais no assunto e demonstra estar mais conformado, sem, contudo, abandonar as pequenas atitudes ecologicamente corretas.

A conversa me faz parar, pensar no assunto. Dei-me conta de que, numa atitude completamente egoísta, nunca me importei muito com os efeitos das mudanças climáticas ou degradações ao meio ambiente. Por acreditar que muitos anos ainda faltam para que o homem sinta, efetivamente, os efeitos desastrosos de suas ações, acabei por esquecer que meus filhos e netos estarão aqui quando esses dias chegarem. Na verdade, me senti envergonhada em perceber que meu filho, com menos de uma década de vida, possui uma consciência ambiental bem maior que a minha. Hoje, penso mais vezes antes de tomar atitudes que possam prejudicar a natureza e lembro que, desde pequenino, João já me chamava a atenção ao me ver deixar a torneira aberta ou jogar lixo na rua. Alívio meu é saber que o futuro da humanidade está nas mãos de crianças como ele.


Flávia Guerra, jornalista, é
editora do DMOnline

Comentários

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1

Célia Varela

05/09/2008 | celiavarela7@...

OLá Flávia,
A sua coluna de ontem me chamou atenção" meu filho e o aquecimento global", porque dias atras uma amiga minha do Brasília passou por situação semelhante , o filho dela de 09 anos apresentava uma tristeza e desânimo profundo e quando a mãe foi conversar com ele descobriu que filho carregava uma preocupação intensa com a questão do aquecimento global, a qual ele buscava uma saída.
Acho que as crianças estão percebendo atraves dos questões ambientais, a idéia de que globalização dos problemas estruturantes, afeta a vida de todas as aldeias. Mas do que nunca é necessário aprender a e praticar a responsabilidade com a sustentabilidade da vida e da dignidade humana, vamos saber Cuidar da Gaia, a terra , o nosso mundo.
Há braços,
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