Opinião | de de | Edição nº
É necessário, às vezes, que o óbvio seja demonstrado cientificamente para que algumas pessoas possam se livrar de preconceitos e entender a realidade. É o que acontece agora, com a divulgação, nesta quinta-feira (21/novembro), de uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas que comprova: o etanol não é o responsável pela alta de preços nos alimentos, registrada no final de 2007 e início deste ano. Assim como já estava implícito na nova safra recorde de grãos do Brasil, anunciada há algumas semanas, o estudo da FGV atesta que a expansão da cana-de-açúcar não é uma ameaça à produção de alimentos. O verdadeiro vilão do desenvolvimento sustentável do País continua sendo o obscurantismo de uns e a esperteza de outros.
Os dados da FGV e da safra deveriam acalmar algumas mentes catastrofistas e mal intencionadas que tentam demonizar o etanol. De acordo com os especialistas que, ao longo do ano, conduziram a pesquisa da fundação, foi a especulação com os mercados futuros que contribuiu para o aumento dos preços entre 2007 e 2008. O estudo cita dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) que, no mês de outubro, divulgou que a safra brasileira de grãos alcançou um patamar 9% superior ao do ano passado.
O Brasil encerrou a safra 2007/2008 com um volume recorde de 143,8 milhões de toneladas de grãos. Na safra passada, o resultado foi de 131,7 milhões de toneladas. O salto de quase 10% se deu em função de maiores investimentos dos produtores. A área plantada aumentou (2,5%) e também cresceu o gasto com insumos, gerando maior produtividade (6,6% a mais por hectare).
O que aconteceu de uma safra para outra? Os problemas da agricultura brasileira continuaram os mesmos: insuficiência de crédito, seguro agrícola inexistente, insumos a preços exorbitantes e logística inadequada. Só que, diferentemente do último ano, os preços no mercado internacional estavam melhores no momento do plantio e, por isso, os produtores apostaram mais. Simples assim.
O resultado da safra ajuda a desmistificar um debate inútil, mas nocivo ao desenvolvimento do País, especialmente para as regiões que começam a consolidar a modernização de seus processos produtivos. Nesse debate, muitas vezes encampado ingenuamente pela mídia, alguns interlocutores costumam pintar cenários terríveis de superinflação para commodities agrícolas, crise de desabastecimento e fome mundial. A grande culpada seria a cana-de-açúcar graças ao crescimento da demanda mundial por combustíveis renováveis, em específico pelo etanol. O Brasil estaria sob a ameaça de retrocesso à monocultura.
Os números da Conab não deixam dúvida de que a fronteira da cana é a mais dinâmica no momento. Se para os grãos o crescimento foi de cerca de 10%, a estimativa para o aumento da safra de cana neste ano é de 27%, chegando a 710 milhões de toneladas. Contudo, o maior receio dos pessimistas de plantão diz respeito ao “avanço da cana sobre a área de produção de alimentos”. Um dos argumentos era a redução da área plantada (menos 2,7%) na safra 2006/2007.
Mas os dados deste ano não justificam esse temor. No Brasil, a variação da área plantada de cana-de-açúcar foi igual à da produção – 27%, alcançando 9 milhões de hectares, sendo 3,5 milhões destinados ao etanol. Esses 9 milhões equivalem a 19% da área plantada de grãos, que, nesta safra, aumentou 2,5% e chegou a 47 milhões de hectares.
Esses ataques surreais à cana se tornaram mais agudos nos Estados que ainda possuem um estoque relevante de terras para a expansão agrícola. Goiás é um dos melhores exemplos, pois possui aproximadamente 5 milhões de hectares de pastagens degradadas prontos para serem incorporados à agricultura e que serão beneficiários diretos da mais relevante obra de infra-estrutura já planejada para a cadeia do etanol – o alcoolduto, confirmado pela Petrobras. Quarto maior produtor, tanto de grãos quanto de cana, o Estado tornou-se uma espécie de epicentro dessa discussão inócua contra o álcool – em alguns municípios, a disputa chegou às vias jurídicas para que o direito de plantar a cana-de-açúcar fosse garantido.
No caso de Goiás, contudo, os números novamente mostram que não faz sentido dar corda a esse debate. Segundo a Conab, a área plantada de cana no Estado passou de 358 mil para 530 mil hectares (variação de 48%) no último ano. E a área destinada aos grãos, encolheu? Não, os grãos também avançaram: passaram de 3,5 milhões para 3,7 milhões de hectares (3,3% a mais). Com as terras disponíveis, melhorias tecnológicas e adaptações de manejo na pecuária (que ocupa mais de 14 milhões de hectares), seria possível multiplicar por dez a área de cana e ainda dobrar a área de grãos sem qualquer desmatamento.
A quem interessa atacar a expansão da cana-de-açúcar? Em primeiro lugar, é preciso que a resposta a esse questionamento não seja menor do que o problema que tentam provocar: esse ataque só interessa a quem pretende manter o País preso ao atraso e a velhos ritos de produção. Gente que talvez esteja mais preocupada com o valor de suas commodities (petróleo e grãos) do que com a fome mundial. Como principal vetor de desenvolvimento do interior do Brasil no momento – sendo mais uma opção de renda para os produtores, gerando melhores empregos e recuperando áreas degradadas –, a moderna indústria sucroalcooleira precisa de mais estímulos e menos estigmas.
Leonardo Vilela, 44, médico, é deputado federal (PSDB-GO) e ex-secretário de Agricultura (1999-2001) e Infra-Estrutura (2005) de Goiás



Você já começou a escrever segunda as novas regras do acordo ortográfico?
