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Opinião | 21 de Novembro de 2008 | Edição nº 7686

Colo de pai

Flávia Guerra
Da editoria do DMRevista

Tive uma infância fabulosa. A saudade daquela época, dizem uns, é tão latente em mim, que mal disfarço o desejo de reviver os velhos tempos.

Um tio, muito sábio e amoroso, alega que tal saudosismo se justifica pela atual ausência da figura paterna. Pode ser. O tempo foi passando e a convivência com meu pai herói, meu exemplo, foi se tornando cada vez mais rara. Os intervalos entre as visitas, cada vez mais espaçados. Naquele tempo, é verdade, eu tinha tudo, sua exclusividade, seu carinho, seu tempo. Nós, as três filhas, éramos o que ele possuía de mais importante. Vivíamos uns pelos outros, apenas. E mais: fazíamos de cada pequeno acontecimento uma deliciosa experiência, cheia de significado.

O amor e cuidado dispensado ao trio parecia estar imune a influências externas e não existia nada capaz de afastá-lo. Nem o casamento rompido teve forças para tirá-lo de nós. Por muito tempo, vivemos indiferentes à situação, como se ainda estivéssemos sob o mesmo teto. A convivência era tão intensa que não nos permitia perceber a distância. Tínhamos certeza de que éramos prioridade e isso era o que mais importava naquele momento. Ele era simplesmente o melhor pai do mundo. Para os outros, o melhor tio, o melhor irmão, o melhor amigo, aquele de quem todos gostavam. Não havia melhor lugar que seu colo.

Com o tempo, porém, a distância foi tornando-se real, dolorosamente concreta. As ocupações e novas responsabilidades conseguiram levá-lo para longe. Aos pouquinhos, metro por metro, acompanhamos seu distanciamento, sem nada poder fazer, senão amá-lo como sempre. Hoje, penso que não há muito o que fazer, já que escolheu traçar seu caminho. Nós, já adultas, também adquirimos novos afazeres e já não cabemos mais no aconchego do colo. Disfarçamos a saudade tentando levar uma vida normal, fingindo conformismo. Muitas vezes, escondemos as lágrimas quando o vemos chegar, depois de muitos dias, sorridente no portão. Age como se nada tivesse acontecido, como se não tivesse nos deixado esperando. Sabemos, no fundo, que seu amor continua indissolúvel, apenas ofuscado por condições adversas. Da nossa parte, o sentimento também permanece intacto, e jamais mudará.

Creio que nossas experiências juntos continuarão norteando minhas letras. Ele continuará me inspirando, sempre. Lendo meus textos, quase todos com fartas pitadas de lembranças, meu sábio tio deu um parecer:

“É fácil explicar seu estilo de escrever. Essa sua saudade do passado se resume ao prazer de viver aquilo tudo ao lado de seu pai, alguém que já não está tão presente”, resumiu. Como não poderia deixar de ser, cheguei à conclusão de que ele tem mesmo razão. Aliás, meu tio é o cara dos pensamentos, das análises, dos conselhos. É imparcial, crítico e possui uma capacidade ímpar de examinar as situações. A verdade é que vou morrer revivendo os tempos de criança, quando a felicidade se resumia à companhia de meu pai e às singelas peraltices.

Quisera eu poder voltar no tempo... Faria tudo de novo, não mudaria nada, apenas reviveria com mais intensidade. Diria mais vezes “papai, eu te amo!”

Flávia Guerra
é jornalista e editora do DM Online -
flaviaguerra@dm.com.br

Comentários

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1

Eduardo Coimbra Passos

21/11/2008 | coimbrapassos@...

Ao ler seu artigo me veio lágrimas nos olhos. Tenho sentimento e pensamento idêntico com relação ao meu maior amigo, companheiro, sócio e professor da vida, meu pai.
Que bom encontrar pessoas com seu pensamento Cód: 20471

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