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Opinião | 21 de Novembro de 2008 | Edição nº 7686

Os sinais do G-20

José Dirceu
ex-ministro-chefe da Casa Civil

As medidas adotadas pelo G-20 atacam os graves erros cometidos por Wall Street – seja no setor imobiliário, nas direções das empresas, nas agências de riscos, no FED, o banco central norte-americano, e na SEC, a CVM de lá. São uma resposta do mundo – e não do G-8 – à especulação que tomou conta não só do mercado subprime dos Estados Unidos, mas do mercado internacional com a especulação geral com matérias- primas, alimentos e petróleo. Soam como um réquiem para Alan Greenspan e Henry Paulson. O primeiro por não permitir que uma maior regulação controlasse o sistema financeiro norte-americano, nem mesmo com as evidências de que a especulação no setor imobiliário era uma bolha que iria furar. O segundo porque capitaneou, na então presidência da Goldman Sachs, com a anuência e com a cumplicidade do FED e da SEC, a recusa aos limites para o endividamento nas operações na bolsa. Nada sobrou com credibilidade e legitimidade no sistema financeiro norte-americano e, por fim, faliu uma das maiores mistificações do capitalismo financeiro, os modelos matemáticos de risco, ganhadores até de prêmios Nobel de Economia, que garantiam ganhos e segurança para ativos que hoje são pó.

Para além das conseqüências da crise para os Estados Unidos, quem paga a crise é o mundo. A Europa e o Japão já estão em recessão, a Ásia e outras partes do mundo já enfrentam os efeitos da crise. Como sempre, os países mais pobres são os que irão sofrer mais, por isso, é preciso não só deter a crise, mas também evitar que ela se transforme em recessão generalizada e, pior, em depressão. Tem que se evitar a queda dos preços das commodities e das exportações, o desaparecimento do crédito e dos investimentos internacionais, sob pena de vivermos uma nova onda de desemprego e fome no mundo.

Não basta injetar dinheiro no sistema financeiro e recuperar o setor imobiliário, seja nos Estados Unidos, na Espanha ou na Grã-Bretanha. É necessário reformar e não refundar, como alguns querem, o sistema financeiro internacional. Ou aproveitamos a atual crise para tornar o sistema financeiro um instrumento da produção e do comércio, ou não adiantará saneá-lo e salvá-lo. Também é preciso aproveitar a atual crise para reformar o comércio internacional, pondo fim aos subsídios e tarifas, ao protecionismo, particularmente no setor agrícola; e modernizar os organismos internacionais, começando pelo FMI e Bird. Nesse sentido, temos que destacar, entre as medidas propostas pelo G-20, a de moratória por protecionismo por 12 meses, um bom começo para a retomada das negociações de Doha.

A principal questão que precisa ser debatida é a quem serve o sistema financeiro. Se ao sistema produtivo, à nação, ou a si próprio. Como ele deve servir ao País e ao sistema produtivo, sua nacionalização, como medida extrema para garantir os empréstimos e créditos do sistema, é justificável. Na prática, foi o que fez a Grã-Bretanha, salvando naquele momento o capitalismo de uma debacle real.

As medidas adotadas na reunião do G-20, no final de semana passado, devem ser saudadas como um bom começo, mas nem a crise ainda se revelou totalmente e nem as saídas estão claras. Mais transparência, regulação, cooperação e reformas no sistema financeiro internacional, mais estímulos fiscais e crédito no mundo, taxas de juros menores e a retomada da rodada de Doha são medidas importantes para evitar uma depressão no mundo.

Mas é preciso atacar as causas – e elas estão no próprio funcionamento do sistema financeiro e em sua lógica. Como sabemos, os Estados Unidos resistem até mesmo a uma regulação do sistema, e não vêem com bons olhos a decisão de se criar uma câmara de compensação para os 33 trilhões de swaps, “credit default” como ficaram conhecidos. Assim, é preciso esperar Barak Obama assumir para se saber qual será o comportamento norte-americano. Até lá, infelizmente, talvez haja o agravamento da crise e da recessão, o que exigirá, como depois da II Guerra Mundial, que o mundo se reúna ao redor de uma mesa para pactuar sua reconstrução.

José Dirceu
é ex-ministro-chefe da Casa Civil

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