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A arte de desamar

14/01/2009


“O que dói não é perder o ser amado,
mas continuar a amá-lo(...)”
J. D. Nasio

Quando se trata da vida amorosa, em determinados momentos, as pessoas passam por situações que atitudes de urgência se fazem necessárias. Podemos defini-las como a necessidade de se desvincular sentimentalmente do amor perdido, o momento em que se precisa caminhar rumo à decisão de desamar. É preciso romper para amenizar a dor que corrói e parte o coração daquele que sai frustrado e perdido de uma relação amorosa. Momento de grande angústia, de grande dor, de um vazio tão profundo que parece irreparável. Término de uma relação amorosa significativa em que o outro vai embora e deixa só aquele que se iguala a uma criança perdida e desamparada, sem colo e sem lugar, sem pai e sem mãe. Momento de grande dor, um sentimento de perda, não de uma parte de nós, mas da nossa essência. Uma perda inominável.
A maioria de nós já se viu com a necessidade de se desvincular afetivamente de alguém, distanciar-se emocionalmente, seja pelo sofrimento, dor, rejeição, solidão, pela angústia de viver ou ter vivido uma relação conturbada, que fez mal.
Para conseguirmos distanciar afetivamente de alguém que já formamos um vínculo sólido, faz-se necessário primeiramente compreender a estrutura que sustentou e solidificou essa união para depois elaborar uma estratégia que atinja o efeito desejado. Não se consegue dinamitar com eficácia um prédio condenado se não souber da sua constituição, da fundação, das informações sobre as ferragens e dos dados complementares. A partir desses, que se podem enfrentar os obstáculos impeditivos do processo de implosão do prédio.
O maior obstáculo que encontramos na árdua e complicada tarefa de desamar é enfrentar a nossa intensa vontade de amar. Queremos amar, precisamos amar e não interessa a quem; queremos desesperadamente amar. Quando somos abandonados de uma relação, na maioria das vezes temos por vocação não acreditar que poderemos amar outra pessoa - o que é um verdadeiro engano - e para não deixar de sentir as sensações encantadoras da experiência do amor, ficamos a mercê daquele que elegemos como o único depositário desse nosso sentimento que tem a força de nos transformar no mais entusiasmado e feliz dos seres humanos. A nossa tendência de se manter nesse vínculo não é para não perder o outro, mas para não perder a via que nos permite escoar esse sentimento, que carecemos lançar fora de nós e sentir por um outro.
É da nossa constituição: nós queremos e precisamos amar. Lutamos bravamente para não deixar ir embora esse extraordinário sentimento do amor; não queremos que acabe essa sensação maravilhosa de desejar, de gostar, de contemplar, de necessitar, de querer e de depender.
Desamar é uma arte, pois requer atitudes emocionais que. além do despojamento da necessidade do gostar, exige o equilíbrio do sentimento narcísico para aceitar que alguém possa não se identificar com você da maneira esperada. Como disse Nasio, desamar é desfazer lentamente o que coagulara precipitadamente, é retirar o seu excesso de afeto.
A manifestação do sentimento de amar é tendenciosa. Nós precisamos acreditar que no outro está tudo aquilo que nos completa, por isso é inevitável a necessidade de amar. Quando elegemos o outro, não queremos que ele vá embora, porque é através dele que acontece em nós esse fenômeno inexplicável e inexprimível do vibrar dentro de nós, essa mobilização louca que o homem vive em busca, eternamente, até a morte.
Há, pois, que se ter em mente que o amor, a princípio, é uma crença emocional. Como toda e qualquer crença, “pode ser mantida, alterada, dispensada, trocada, melhorada, piorada ou abolida. Nenhum de seus constituintes afetivos é fico por natureza” (Costa, 1998, p. 12).


Rener Cândido é psicólogo e psicoterapeuta especialista em Psicoterapia Psicanalítica. Escreve semanalmente para este jornal. E-mail: psirennerreis@ig.com.br
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