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Martiniano, o intrépido defensor das minorias

14/01/2009


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Conheci Martiniano José da Silva no interior de uma agência bancária, à Avenida Goiás, entre as ruas 2 e 3, Centro, na primeira metade dos anos sessenta do Século 20. Ele sobraçava alguns exemplares de A Moça que Ria Muito (1964), que saíra há pouco. Era a sua precária estréia no mundo das letras. Tanto que um ilustre poeta goiano, brincando com o título do romance, a ele se referia como A moça queria muito. Ali mesmo, Martiniano, afavelmente, me ofereceu um exemplar da obra, com gentil dedicatória, e me pediu a opinião que lhe dei, sem concessões, poucos dias após.
O tempo passou, e, dois anos depois, 1966, Martiniano reapareceria no cenário das letras com a obra coletiva Poesias e Contos (Bacharéis), juntamente com outros jovens talentos da literatura goiana, dentre eles, Alaor Barbosa, Miguel Jorge, José Mendonça Teles, Edir Guerra Malagoni, Ieda Schmaltz (de saudosa memória), Geraldo Coelho Vaz, Luiz Fernando Valadares. Nessa obra promissora, ombreava-se com a nova geração de poetas e prosadores de Goiás, que faria escola.
Em meados dos anos setenta, 1974, Martiniano publicaria o ensaio Sombra dos Quilombos, abordando, com seriedade científica, e linguagem de esteta, o problema da escravatura, no Brasil, e, predominantemente, no Planalto Central. Esse tema ser-lhe-ia recorrente com outros trabalhos de fôlego: Auto de Zumbi (teatro, montagem de José Fraga), 1979; Racismo à Brasileira: Raízes Históricas (1985, reeditado em 1986 e em 1995); Os Quilombos na Dinâmica Social do Brasil (coordenação de Clóvis Moura), 2001; Quilombos do Brasil Central: Violência e Resistência Escrava, 2003. Era uma voz vigorosa que se juntava, com a determinação de um fanático sublime, na defesa das minorias, à voz candente da antropóloga Mari de Nasaré Baiocchi, notável antropóloga da Universidade Federal de Goiás,
Outra preocupação de Martiniano veio a ser a problemática do desenvolvimento sustentável, ou seja, que o progresso avassalador não investisse contra os ecossistemas imprescindíveis à existência do planeta como bioma universal. Nessa esteira, viria Parque das Emas: Última pátria do cerrado (bioma ameaçado), 1991, brado de alerta contra a destruição irreversível da savana do Centro-Oeste.
Radicado em Mineiros, transformou, paulatinamente, a cidade dos seus filhos e netos, na Capital Cultural do Sudoeste Goiano. Com efeito, ano após ano, realizaria, ali, congressos, simpósios, semanas culturais, seminários com a presença das maiores expressões da cultura goiana, liderados pela Academia Goiana de Letras, com destaque às figuras de Ursulino Tavares Leão, José Mendonça Teles, Geraldo Coelho Vaz, e outros nomes da literatura goiana. E passou a estudar, sistemicamente, sua terra e sua gente, com trabalhos da maior importância para o conhecimento da terra generosa: Mineiros: Memória Cultural, memória, 1980; Conflito de Limites Goiás/Mato Grosso, história, 1981; Traços da História de Mineiros, história, 1984; Mineiros: Terra e Povo, ensaio histórico-antropológico, parceria com Josias Dias da Costa, até há pouco inédito.
Advogado militante, publicou Advocacia, Engenho e Arte, 1999, muito elogiado pela Ordem dos Advogados Brasileiros, Conselho Federal, Brasília (DF); e Os Coronéis e o Judiciário, história, também até há pouco inédito. A propósito do exercício da advocacia, e da tramitação ronceira dos processos judiciais, Martiniano escreveu um ensaio notável, intitulado Quando a Advocacia me Aborrece, a Literatura me Consola, que teria enorme repercussão entre os causídicos da terra.
Mas, afinal, quem é esse Martiniano José da Silva?
É um baiano determinado, natural de Poço da Pedra/ Riacho da Casa Nova, onde nasceu, a 18 de setembro de 1936, tendo como genitor Mariano José dos Santos, e como mãe dona Maria Isabel Silva, um casal de agropecuaristas. Seus primeiros estudos, fê-los em Casa Nova/BA; o ginásio, no “Liceu Salesiano de Cuiabá”, Mato Grosso; e o curso secundário, no “Colégio Estadual Professor Pedro Gomes”, por vários anos dirigido pela legendária Professora Lígia Rebelo; e no Liceu de Goiânia, onde pontificaram, por vários anos, Venerando de Freitas Borges (o primeiro prefeito de Goiânia), e o genial Bernardo Élis, da Academia Brasileira de Letras. Fez o Curso de Direito na Universidade Católica de Goiás, colando grau com a turma de 1966, onde se encontraria com os futuros integrantes do Grupo GEN – Grupo de Escritores Novos, que marcaria época em Goiás.
Com toda essa intensa luta pela cultura, fundaria, como instrumento de aglutinação, a Academia Mineirense de Letras. E passaria a integrar, no âmbito estadual, sodalícios conspícuos, tais como o Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, hoje sob a dinâmica batuta de Aidenor Aires, um dos grandes poetas da terra, também oriundo da Bahia; e a União Brasileira de Escritores / Seção de Goiás.
Ativista cultural, integrou e integra o “Movimento Negro Unificado”; e preside a Agência Mineirense de Cultura (Aminc), a Secretaria de Cultura de Mineiros.
Como decorrência natural de sua atividade advocatícia, criou as subseções da OAB/GO, em Mineiros e em Jataí; e integrou o Conselho Seccional da OAB de Goiás, onde sua presença era uma constante, e onde goza de elevado prestígio.
Vale registrar, aqui, algumas manifestações conceituais sobre Martiniano, por eminentes figuras do mundo da cultura e das letras.
Ei-las.
Ubirajara Galli – “Que falta faz um homem chamado Martiniano J. Silva aos outros municípios do País. Privilégio para a cidade de Mineiros tê-lo. Orgulho para Goiás adotá-lo como filho. Diferencial de esperança para o Brasil” (in prefácio de Parque das Emas: Última pátria do cerrado, 2ª edição, 2005, prefácio intitulado Um Homem Chamado Martiniano J. Silva (Grifou-se). (In Parque das Emas - Última pátria do cerrado).
Carmo Bernardes:
“Até o limite dos meus parcos conhecimentos, os dados apresentados, históricos, geográficos – científicos enfim?, são de meridiana clareza e sobretudo corretos. E se aos estudantes, às novas gerações, o meu aval ao que aqui Martiniano assegura, tiver peso, recomendo que contem com ele” (in Parque das Emas - Última pátria do cerrado).
Ecléa Campos Ferreira:
“Nesse cenário nacional, Goiás é o Estado que mostra um quadro de maiores marcas de desequilíbrio da natureza, maior volume de alterações e danos ecológicos. Sem falar da deflagração do Césio-137, assunto encerrado, contudo mais do que nunca vivo na alma e no corpo de suas vítimas.
“Parque Nacional das Emas - Um Bioma Ameaçado é uma denúncia séria, responsável, sobejamente fundamentada, que o autor faz ao Brasil, que, se não souber – ou quiser – ouvir, poderá caminhar, irreversivelmente, para a sua própria destruição.”
E, mais adiante:
“Como denúncia, a obra apresenta os fatos e a sua prova.”
“Como apelo, o autor atinge profundamente a nossa consciência de leitores co-habitantes no paraíso ameaçado, levando-nos a repudiar, responsavelmente, a idéia de que ‘Terra não possa ser a morada ideal do homem e a residência eterna da vida’ .”
Brasigóis Felício:
“Se é verdade que a História é escrita pelos vencedores, insurge-se contra isso o trabalho corajoso e responsável de historiadores como Martiniano J. Silva, Clóvis Moura e Décio de Almeida Prado. Ainda bem que não faltam cantigas de rebelião, na intelectualidade brasileira, a fazer coro a Sófocles que, em seu drama Antígona, já dizia: ‘Por mais que os tiranos apreciem um povo mudo, o povo fala. Aos sussurros, a medo, na semiescuridão, mas fala’ / (in Quilombos do Brasil Central: Violência e Resistência Escrava, pág. 11, opinando sobre a obra).
José Mendonça Teles:
Quilombos do Brasil Central: Violência e Resistência Escrava – é fruto de longa e cuidadosa pesquisa no campo da escravidão negra, nos cerrados e bibocas do Centro-Oeste brasileiro, com o mérito de escrever e desvendar assunto inédito ou só parcialmente “visitado”, ora ligado, aprofundado e contextualizado na história regional. Foi escrito por um historiador e pesquisador apaixonado pela ciência da história, por um homem chamado Martiniano, o belicoso, o guerreiro das palavras e das pesquisas que, deixando o latinório de lado, é identificado como Martiniano José da Silva” (in Quilombos do Brasil Central: Violência e Resistência Escrava, pág. 17).
Manifestam-se, ainda, sobre a obra magistral, figuras da maior importância no âmbito da historiografia, como a profª Gilka Vasconcelos Ferreira de Salles; o prof. Holien Gonçalves Bezerra, da UFG; e o prof. Altair Sales Barbosa, doutor em Antropologia pela “Smithsonian Institution”, de Washington, DC, EUA, págs. 11/12, 13/14 e 15/16, respectivamente, da obra em foco.
Sublime defensor das minorias, Martiniano incorporou, ao leque de seus combates de guerreiro intrépido, a luta pela preservação do meio ambiente, única maneira de construir-se um futuro tranquilo para as gerações porvindouras.
Pela repercussão de seu trabalho, na mídia e no plano das realidades palpáveis, vê-se, nitidamente, que Martiniano é um mestre que faz discípulos, a cada dia. O que evidencia o apelo pedagógico de suas pesquisas e de suas ideias modernas.


Licínio Barbosa é advogado criminalista, professor emérito da UFG, professor titular da Universidade Católica de Goiás, membro efetivo do IAB – Instituto dos Advogados Brasileiros/RJ, e
de várias outras instituições científicas e
culturais, do País e do exterior
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