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Afinal, Lampião era esquerda ou direita? Conservador ou progressista?

Ele está de volta após ser tema de escola de samba; sua mulher chegou a virar meme. Mas se Lampião estivesse vivo quais seriam suas lutas?

Imagem ilustrativa da imagem Afinal, Lampião era esquerda ou direita?  Conservador ou progressista?

Há poucos dias, Virgulino Ferreira da Silva, o controverso Lampião, voltou a ficar no topo dos assuntos mais comentados do Brasil. Primeiro virou meme com a frase de um participante do BBB, que disparou para outra jogadora: “Você tem sangue de Maria Bonita”. Trata-se de referência à mulher do maior líder banditista do século 20.

Mas a consagração do anti-herói ocorreu mesmo com a vitória da escola de samba carioca Imperatriz, no carnaval deste ano.O samba-enredo “O aperreio do cabra que o excomungado tratou com má-querença e o santíssimo não deu guarida” foi criado pelo carnavalesco Leandro Vieira.

A canção, que embalou a escola, fala de uma fábula em que Lampião, ao morrer, não foi aceito nem no inferno nem no céu. Conforme os carnavalescos, ele “conseguiu uma coisa que poucos brasileiros conseguiram, a eternidade”.O samba enredo da escola faz jus à figura emblemática de Lampião: cheia de contrastes. Ele era considerado por uns como herói, por outros era bandidos, pois atacava e saqueava regiões do Nordeste. Sua figura exerce fascínio, mas também indignação pela violência de seu bando. Inclusive, Lampião ganhou esse apelido porque conseguia atirar tão rápido que era capaz de clarear a noite.Nestes tempos de polarização política, em que o personagem voltou à pauta, uma dúvida paira no ar a respeito de sua ideologia política.

Se colocarmos Lampião em uma máquina do tempo, para qual lado ele e seu grupo de cangaceiros tenderia? Esquerda ou direita?Historiador e doutorando em História, Cristian de Paula diz que é difícil responder tal pergunta, pois ele explica que o espectro político que define o campo ideológico de direita e esquerda se transforma. O pesquisador afirma que, para determinar a ideologia de um grupo, é preciso fazer comparações com outras sociedades e outros contextos históricos.“Para os padrões da época, ele pode ser considerado um agente político de esquerda. Não que ele estivesse atuando no campo político convencional, pois, de forma nenhuma, era militante. Mas ele questionava a propriedade privada e lutava por uma espécie de justiça social”, analisa.Por outro lado, explica que o nordestino nascido em Serra Talhada, Pernambuco, carrega em seus atos alguns aspectos conservadores, como o trato com as mulheres e a atuação política muito violenta.

Dessa forma, Cristian conclui que o "rei do cangaço" não encaixaria no modelo de esquerda do Brasil atual, que tem uma tendência progressista. “Acho que ele não se preocuparia com as pautas de costume e não seria aquela pessoa que debateria ideologia de gênero e racismo estrutural”, palpita. O pesquisador acha mais fácil o grupo de Lampião estar vinculado à uma prática tradicional da esquerda em uma luta institucionalizada, como aquela protagonizada pelo MST. “Porque esse movimento traz também pautas de justiça social e questiona a lógica da produção agropecuária, que é uma produção, ainda hoje, muito conservadora. Essa semana, tivemos a notícia das vinícolas do Sul do país que adotam condições análogas à escravidão”, argumenta.

Cangaceiro defendia práticas conservadoras

Doutor em Sociologia pela UFG, o advogado e jornalista Welliton Carlos tem opinião diferente. Ele conta que, após tempos tentando entender tal figura, chegou à conclusão de que Lampião estava mais próximo da extrema direita daquele período - afinal, praticava hostilidade ao governo central, adotava discurso populista/caridoso/religioso, extremismo, com assassinato de mulheres e julgamentos sumários. Para ele, o teórico Cas Mudde oferta algumas categorias definidoras e duas delas se encaixariam para o cangaço de Lampião: agrarianismo/corporativismo e anti-democracia. “Ele não era da esquerda. Combateu a Coluna Prestes, que era um grupo aliado ao tenentismo, e que estava insatisfeito com o conservadorismo republicano. Anos depois, o líder, Luís Carlos Prestes, seria o primeiro ícone da esquerda brasileira. Lampião não tinha uma formação ideológica. Seus atos que podem ser interpretados. O banditismo era diferente das atuais milícias e se diferenciava do jaguncismo de época. Mas é certo: agiu em parte a mando dos conservadores, como a Igreja Católica, através de Padre Cícero, este sim, um perfil de extrema direita. Esse movimento conservador inflou Lampião para combater, em tese, progressistas. Mas sob o ponto da selvageria e violência, estava, claro, tipificado como um bandido”, ressalta.Além disso, o pesquisador aponta que as motivações do cangaceiro se assemelham às da extrema direta pelo apreço à família típica – Lampião tinha como motivação inicial vingar a morte do pai - e também pelo seu viés instrumental, armamentista e violento contra o Estado. “Era movimento paralelo ao Estado. Ainda que ele tenha sido vítima de injustiça, foi um justiceiro, que desprezava o sistema”, analisa.

Para Welliton, poucos fatos já são suficientes para afastá-lo do humanismo que, em tese, é portado pela ideologia de esquerda: "Lampião era um estuprador depravado. Novos relatos indicam que fazia isso de forma contumaz, invadindo casas de famílias pobres. Matava mulheres. Não vejo humanismo nisso".

Cangaceiro não foi nem um nem outro

Tendo em vista que o banditismo social não tinha perspectiva revolucionária e não apresentava ideologia determinada, a historiadora Watusi Santiago acredita que não seja possível definir se Lampião era de esquerda ou de direta.“Mas, com certeza, Lampião era resistência. Ele se torna cangaceiro para se vingar de grupos oligárquicos que prejudicaram sua família financeiramente e, posteriormente, até mataram seu pai, o que lhe deu força para ele se manter no cangaço”, explica, ressaltando que é perigosa e anacrônica tal análise, já que a esquerda tem uma premissa, o que o cangaço não tinha. “Outros grupos fazem frente ao capitalismo ao latifúndio e, não são, necessariamente, grupos de esquerda”, explica.O que vale lembrar nos dias de hoje, de acordo com a historiadora, é que Lampião foi perseguido e se tornou herói por enfrentar o poder: liderava um grupo pequeno, se comparado ao Estado, e composto por pessoas simples e sem instrução, mas era tido como um risco às estruturas.“Ele era um incentivo para o levante, assim como foi Antônio Conselheiro. Acabar com Lampião era mostrar poder e o Estado faz essa tarefa. Ele não dividia riquezas, mas ele era um líder e poderia incentivar outros grupos no enfrentamento contra oligarquias e o Estado”, analisa.

Tráfico

O que a pesquisadora também frisa é que os grupos dominantes usaram a mídia para disseminar uma figura demoníaca no sentido de mágico e místico: alguém que precisava ser combatido. E lembra um fato parecido que aconteceu recentemente: “Na busca por Lázaro também se criou na mídia uma figura satânica. Aquilo que o Estado não consegue combater materialmente, colocam-se elementos místicos”.Por este motivo, Watusi Santiago se arrisca a dizer que os grupos dominantes mudaram menos do que as formas de resistências. “Elas (as formas de resistências) são diversas e se estabelecem de acordo com as possiblidades que estão à disposição. Por isso, a dificuldade de localizar Lampião em um grupo de resistência, pois é diferente do que temos hoje”, diz.Um dos grupos que ela compara com o que foi o cangaço é o tráfico organizado. “É um jeito de trazer a renda para grupos pequenos que não consegue competir nos modelos que o Estado propõe e não tem perspectiva de divisão de renda. Os envolvidos são aqueles que foram privados do acesso à essa riqueza e, não importa com qual ferramenta tem feito isso, mas tem brigado com Estado e com grupos majoritários. E, esses grupos, não são da direta ou esquerda, mas são de resistência a esse modelo que está posto”.

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