
Mesmo sob investigações e acusações criminais, suspeitos de ligação com o jogo do bicho no Rio de Janeiro continuam a exercer influência no Carnaval de 2025 por meio das escolas de samba.
Rogério de Andrade, preso desde outubro de 2024 sob acusação de homicídio, cumpre pena na penitenciária federal de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. Apesar disso, segue sendo apontado como o principal financiador da Mocidade Independente de Padre Miguel.
Durante o desfile da escola, sua esposa, Fabíola de Andrade, rainha de bateria, usou um colar com um pingente da letra “R”, em referência ao marido. Em entrevista na concentração, lamentou sua ausência. A Mocidade terminou a competição na 11ª posição.
Advogados de Rogério alegaram que a denúncia é genérica e carece de provas concretas sobre seu envolvimento no crime.
Nome de foragido é exaltado no Salgueiro
No Grêmio Recreativo Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro, o patrono Adilson Oliveira Coutinho Filho, conhecido como Adilsinho, também esteve presente de forma simbólica. Seu nome foi mencionado pelo carro de som antes do início do desfile, enquanto integrantes da escola usaram camisetas com a inscrição “Amigos do Patrono”. Além disso, na arquibancada, uma das bandeiras da torcida exibia seu rosto.
Adilsinho possui um mandado de prisão em aberto por homicídio e é considerado foragido. Investigações conduzidas pela polícia e pelo Ministério Público do Rio de Janeiro o apontam como membro da nova cúpula do jogo do bicho no estado, com atuação no controle de bingos clandestinos e no comércio ilegal de cigarros na Baixada Fluminense.
A defesa de Adilsinho, em manifestações à Justiça, afirmou que ele “não possui qualquer negócio relacionado ao jogo do bicho” e que atua no setor de distribuição de cigarros regulamentados pela Anvisa.
Após a apuração dos resultados do Carnaval, o Salgueiro, insatisfeito com a sétima colocação, publicou uma nota em que declarou: “Aos ladrões de plantão: o Salgueiro não irá se intimidar com essa quadrilha de canalhas”, sem especificar a quem se referia.
Antigos patronos seguem na Sapucaí
Representantes da cúpula antiga do jogo do bicho também marcaram presença no Carnaval deste ano. Anísio Abrahão David, patrono da Beija-Flor, e Ailton Guimarães Jorge, conhecido como Capitão Guimarães, patrono da Vila Isabel, compareceram ao Sambódromo.
Capitão Guimarães foi homenageado no samba-enredo da Vila Isabel, que trazia os versos: “Não tenha medo de se entregar/Pois nosso maquinista é capitão/E comanda a legião que vem lá do Boulevard”. No livro oficial do desfile, a escola justificou a referência como uma homenagem “à firmeza e segurança de Ailton Guimarães Jorge na direção do GRESU Vila Isabel e da liga independente das escolas de samba do Rio de Janeiro”. O atual presidente da agremiação, Luiz Guimarães, é filho de Capitão Guimarães.
Disputa por herança e influência no Carnaval
Para o Ministério Público, Rogério de Andrade e Adilsinho formam a nova cúpula do jogo do bicho no Rio de Janeiro. Rogério é sobrinho de Castor de Andrade, um dos bicheiros mais conhecidos da história da cidade e patrono da Mocidade de 1970 até sua morte, em 1997. Sob seu comando, a escola conquistou cinco títulos.
A Mocidade mantém em seu pavilhão a silhueta de um castor, símbolo da presença da família Andrade na escola. A acusação de homicídio contra Rogério tem ligação direta com a disputa pela herança deixada por Castor. Segundo denúncia do Ministério Público, ele seria o mandante do assassinato de Fernando de Miranda Iggnácio, genro de Castor, morto a tiros em 2020 após desembarcar de um helicóptero no Rio. Iggnácio disputava o controle dos negócios ilícitos da família.
Nos anos anteriores, Rogério chegou a desfilar com a Mocidade e a participar da apuração dos resultados, mas, com o avanço das investigações, passou a manter uma postura mais discreta.
Já a relação de Adilsinho com o Salgueiro é recente. Em 2024, ele foi apresentado como patrono da escola, após manter vínculos anteriores com a Acadêmicos do Grande Rio. Helinho de Oliveira, dirigente da Grande Rio, é seu primo.
Falta de transparência financeira
A origem dos recursos financeiros das escolas de samba e sua possível relação com investigados pelo jogo do bicho seguem sem esclarecimento. As agremiações não disponibilizam informações detalhadas sobre suas contas em portais oficiais e não costumam divulgar balanços financeiros, apesar de receberem recursos públicos para a realização dos desfiles.