No “Manifesto da Poesia Pau-Brasil”, texto publicado no jornal Correio da Manhã, em 1924, o poeta Oswald de Andrade (1890-1954) discorreu a concepção do que era o movimento modernista. “Os casebres de açafrão e de ocres nos verdes da Favela, sob o azul cabralino, são fatos estéticos. A Poesia Pau-Brasil é uma sala de jantar das gaiolas, um sujeito magro compondo uma valsa para a faluta e a Maricota lendo o jornal. No jornal anda todo o presente”, escreve.
Surgido no cenário artístico na década de 1920, o movimento modernista atingiu seu ápice com a Semana de Arte Moderna, em 1922, realizada Theatro Municipal, em São Paulo. A estética do modernismo, influenciada pelas vanguardas europeias, foi moldada – digamos assim – por nomes de peso no cenário artístico da época, como Mário de Andrade, Paulo Prado, Godofredo Silva Telles, Guilherme de Almeida, entre outros. Ali formou-se uma identidade genuinamente nacional no campo das artes.
Todos esses elementos fazem parte da exposição “Ci”, que ficará em cartaz até o dia 24 de outubro, em Madrid, na Espanha. Idealizadas pelas artistas visuais goiana Shay Reis e carioca Andréa Bellotti, o projeto tem como ponto de partida a discussão dos ataques direcionados à diversidade cultural em uma proposta contemporânea. “O projeto tem em sua essência a diversidade. A busca por um povo descolonizado, um povo que conhece sua essência. Não se trata de nacionalismo”, diz Reis, ao DM.
Oswald de Andrade pelo artista Dê Almeida
“Se trata de nativismo. Uma busca pelo o que é nosso, como trata Oswald. Acreditamos que em um cenário tão rude com as Artes e com a Literatura esse projeto traz uma poética do povo brasileiro vivo”, prossegue. A idealizadora detalha ainda que as imagens não focam apenas no sofrimento humano. Quando fotografamos populares nas ruas e quando filmamos pessoas citando o Manifesto todos eles traziam uma resistência enquanto postura, liberdade no sorriso”.
Segundo a crença indígena, Ci é a origem das coisas que dela se originam. Além disso, “Ci, mãe no mato” é também o terceiro capítulo do livro “Macunaíma”, de Mário de Andrade, obra publicada em 1928, mesmo ano de “Manifesto Antropófago”. Para o poeta Haroldo de Campos, o movimento modernista “é pela assimilação que se pode ter uma visão crítica da história. A assimilação de um papel de apropriação, de desierarquização, de desconstrução na tentativa de transformar algo desfavorável em favorável”.
Velho Mundo
A exposição chegou ao outro lado do atlântico após convite feito pela editora espanhola Ediciones Ambulantes, com viagem financiada pela Fundação Cultural hispano-Brasileira – criada pela embaixada do Brasil na Espanha e pela universidade de Salamanca, situada na cidade de mesmo nome. O evento acontece na La Fabulosa, livraria localizada na Calle de Santa Ana, 3, no centro de Madrid. Elas realizam oficina sobre processos criativos e o desenvolvimento de livros autorais.
Para a artista visual goiana Shay Reis, que é graduada em Artes Visuais pela Universidade Federal de Goiás (UFG), a produção de obras artísticas – no atual momento histórico – só é possível se houver rede de apoio que tornem o projeto possível. “Toda essa rede de apoio foi extremamente importante pra conseguirmos colocar de pé esse trabalho. A arte só é possível de circulação hoje dessa forma: redes de apoio. Acreditamos muito nisso”, diz.
Reis afirma ainda que a exposição conta com esculturas em livro, mosaico de livro fotografia entre outras derivações. “O debate é sobre o brasileiro enquanto povos originários e como o colonialismo afetou nossas raízes. Falamos de sociedade matriarcal e também nos ataques culturais, etimológicos, sexuais, políticos e religiosos que o país enfrenta”, explica a artista, que já retornou ao Brasil.
“Através das diferentes linguagens visuais que estamos habituadas a trabalhar rotineiramente (design gráfico, design editorial, ilustração, fotografia, audiovisual), “mastigar”, “deglutir” e expor um olhar nosso da cultura brasileira numa tentativa de reconhecer em nós o que há do princípio, da origem, da raiz antes do colonizador”, pontua Bellotti, descendente de índio, negro, italiano e português.
Saiba mais o movimento modernista
Macunaíma – Mário de Andrade
Publicado em 1928, o livro narra a história do herói índio Macunaíma desde seu nascimento na selva até sua morte e transfiguração. História foi adaptada para o cinema pelo diretor Joaquim Pedro de Andrade.
Manifesto Pau-Brasil – Oswald de Andrade
Veiculado nas páginas do jornal "O Correio da Manhã" em 1924, o “Manifesto Pau-Brasil” jogou luz sobre a questão da identidade nacional, rediscutindo a realidade a partir de uma linguagem novíssima.
Conheça mais sobre as artistas
Shay Reis
Goiana e formada pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Possui ascendência de negro, espanhol e francês. Também é designer, artista visual e fotógrafa formada em artes visuais com especialidade em design gráfico
Andréa Bellotti
É carioca e tem ascendência indígena, negra, italiana e portuguesa. Também é designer e artista visual. Atua no mercado de design gráfico desenvolvendo Branding, ilustrações, capas e projetos gráficos editoriais para livros.
