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"A gente busca a perfeição nas gravações", afirma cantor Flávio Venturini

Com 50 anos de carreira, músico mineiro entra em nova fase criativa. Ao DM, artista comenta turnê e fala sobre disco no qual revisita sua trajetória

Flávio Venturini, 75, se destaca pela delicadeza de suas melodias - Foto: Estúdio Anchell/ Divulgação Flávio Venturini, 75, se destaca pela delicadeza de suas melodias - Foto: Estúdio Anchell/ Divulgação

Como escreve o poeta francês Charles Baudelaire, o sol oprime a cidade com sua luz rija. São 16h04 de uma quarta-feira e, irrequieto, o repórter se põe a esperar o artista mineiro Flávio Venturini, 75. No mesmo instante, pelo aplicativo de mensagem, ele sinaliza: “Pode ligar.”

O escriba enfim telefona e, do outro lado da linha, escuta um “alô” imperativo. Venturini, meu rapaz, como andas tua saúde? “Sempre fui muito ligado nisso. Nas viagens, paramos as atividades físicas. Mas me cuido desde os anos 1970”, revela o músico belo-horizontino.

A música soprada entre palavras, o violão dedilhado em meio aos versos, o perfume dos acordes formados, seja quando cai o dia e é assim, seja quando cai a noite e é assim, à luz plena dos vocais brandos ou à sombra da harmonia doce. Corações de aço derretidos.

Pianista aprofundado em matéria de música erudita, Venturini estudou na Fundação de Educação Artística. Ali, conheceu o guitarrista Toninho Horta, rei da harmonia, e participou de festivais. “Comecei no rock progressivo”, diz. “Veio o 14 Bis e depois a carreira solo.”

Em 1974, foi convidado a gravar com Sá e Guarabyra. Como terminou por integrar a banda O Terço, expoente do progressivo setentista, mudou-se para o Rio de Janeiro. Até hoje é uma formação clássica: Sérgio Magrão (baixo), Moreno (bateria) e Sérgio Hinds (guitarra).

Após gravar os elepês “Criaturas da Noite” (1975) e “Casa Encantada” (1976), Venturini entrou em estúdio para fazer com Beto Guedes “A Página do Relâmpago Elétrico” (1977). Nesse disco, emplacou a canção “Nascente”, escrita em parceria com Murilo Antunes. A faixa viria a ser incluída no “Clube da Esquina 2” (1978), com participação do pianista.

Então, perguntemos, quem de fato é Flávio Hugo Venturini? Bom, em resumo, é o tecladista da banda O Terço a partir de 1974, o fundador do 14 Bis em 1979 e o melodista intuitivo, bom em baladas. O cara daquela “Bola de Meia, Bola de Gude” e das “Noites com Sol”. O cara que descomplica tudo, tudinho. Um artista em constante sintonia com ternuras sonoras.

Os Beatles mexeram consigo. “Com certeza, me inspiraram nas composições”, sentencia Venturini, que enlouqueceu quando garoto ao ouvir pela primeira vez “I Want to Hold Your Hand” e “She Loves You”. Nessa época, conforme reportagem publicada no jornal “O Globo” em 1999, desenvolveu intensa ligação com as canções românticas de Paul McCartney.

O encontro ficou emocionante, pela forma como ela abraçou a canção" Flávio Venturini, cantor, compositor e pianista

No último fim de semana, o músico estreou show em que condensa meio século de música. “Minha História” revisitou as tais páginas daquele livro bom, qual e tal no verso de “Linda Juventude”, que fechou a performance musical. A casa de espetáculos Vivo Rio, localizada no Parque do Flamengo, Rio de Janeiro, recebeu a primeira apresentação da turnê nacional.

Sob a direção de Jorge Espírito Santo, com o comando musical de Torcuato Mariano, direção artística feita por Alexandre Arrabal, iluminação de Césio Lima e coordenação geral de Steve Altit, Venturini se colocou à frente da projeção fotográfica. Seus amigos aparecem nas imagens — uma hora imóvel, que os relógios não marcam, e todavia leve como um suspiro.

A turnê traz outra novidade. Em fase de finalização, o disco “Flávio Venturini – Minha História” chega para ser trilha sonora especial de uma carreira que celebra 50 anos. Será lançado pela parceria Top Cat Produções com a gravadora Biscoito Fino, especializada em música popular brasileira e cujo nome alude ao escritor modernista Oswald de Andrade.

Produzido por Torcuato Mariano — velho conhecido de Venturini —, “Minha História” já tem single disponível nas plataformas de streaming. À primeira vista, por certo, gerará de alguma forma surpresa no ouvinte, pois se trata de dueto com a cantora Ivete Sangalo em uma nova versão para a música “Espanhola”, parceria com Gutemberg Guarabyra.

Convidados

Para Venturini, Ivete Sangalo se tornou voz consagrada e querida Brasil afora. “Perguntei se ela me daria a honra de ser a minha Espanhola e Ivete me respondeu: ‘com todo o meu amor’. O encontro ficou emocionante, pela forma como ela abraçou a canção”, conta o mineiro, que diz tê-la conhecido na época em que participou na Bahia de um projeto social da cantora.

Por sugestão do empresário Steve Altit, Venturini convidou artistas para interpretar seus maiores hits. De início, o pianista lembrou de Guilherme Arantes e Vanessa da Mata. Frejat ficou com “Mais Uma Vez”, escrita com Renato Russo em 1986. “Renato me falou que era fã do grupo O Terço, minha banda nos anos 1970, e escreveu em cima da melodia”, revela o mineiro.

Gloria Groove, cuja sonoridade vai do pagode à soul music, participa de “Princesa”. Venturini afirma que não a conhecia, embora o trabalho dela fosse estourado. “Escolhemos um R&B”, diz sobre o estilo da canção. Jota Quest, Ritchie, Ana Cañas, Gabi Melim, Roupa Nova, Djavan e Ney Matogrosso também participam do disco, que sairá em breve.

Venturini respeitou os arranjos originais. “O público vai gostar”, assegura, dizendo que se satisfaz quando em estúdio. “Em vários momentos, a gente se emocionou. A gente busca a perfeição nas gravações.” O artista, por fim, fala do carinho que sente por Goiânia. “Praticamente uma vez por ano faço show aí.” Novo disco à vista? “Quero fazer um trabalho instrumental, mas, neste ano, me dedicarei à turnê. Vou fazer as coisas no meu tempo.”

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