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Jotabê Medeiros estreia na ficção com romance roqueiro dos anos 1980

Conhecido pelas biografias de Belchior, Raul Seixas e Roberto Carlos, jornalista recria ebulição de cena cultural

Escritor retrata as horas que antecedem histórico concerto realizado na cidade de São Paulo em outubro de 1988 - Foto: Renato Parada/Divulgação Escritor retrata as horas que antecedem histórico concerto realizado na cidade de São Paulo em outubro de 1988 - Foto: Renato Parada/Divulgação

No romance histórico “A Culpa é do Lou Reed”, lançado pelo jornalista e escritor Jotabê Medeiros, o crítico de rock A. Copland flana pelas ruas da metrópole agitada. Buzinas insuportáveis e freios rangidos apregoam o início da tarde do dia 12 de outubro de 1988.

São Paulo e seus transeuntes na calçada, passos rápidos, ansiosos, São Paulo e sua vida veloz, ritmo acelerado, compassado. Copland, já fora do Edifício Copan, escuta a voz chiada de seu ilustre vizinho, o dramaturgo Plínio Marcos, e abre um sorriso camarada.

Como o poeta Charles Baudelaire, o crítico está sozinho na multidão. Sobe a lateral do Teatro Municipal, “esfregando seus pisantes Le Coq Marathon um pé no outro como se quisesse fazer fogo num acampamento no mato”, conforme descreve o narrador tão logo avançamos na prosa. “Pouco se pode dizer da ascendência de nosso herói”, informa, logo adiante.

Copland carrega sobrenome italiano, Malavoglia, todavia assina seus textos em jornais e revistas com um codinome judeu do Brooklyn: A. Copland. Faz uma grana, ainda que modesta, publicando as sílabas do rock’n’roll em diários e semanários. Contudo, avisa a voz do romance, “não era o mais perspicaz nem o mais bonito entre os críticos do seu tempo”.

Tinha lá suas virtudes, há que se ressaltar. Havia lido a poesia de Arthur Rimbaud, e dizem que lera inclusive James Joyce. Era sagaz na máquina de escrever. Batucava-a com eficiência e agilidade. Seu português se destacava pela qualidade, escorreito demais, e entendia o fluxo de fechamento dos jornais e revistas, tornando-se um profissional hábil nessa atividade.

Mas, pontua o narrador, “o ofício que Copland exercia, o da crítica amadora de rock, era de uma fragilidade absoluta, mas ao mesmo tempo tinha se convertido numa espécie de barricada de bárbaros no coração da subjetividade e do seco jornalismo estatístico”. Ou seja, o herói se entorpece à semelhança do flâneur descrito pelo filósofo Walter Benjamin.

Ao ajudar a nivelar a formação incompleta das redações, sente-se contente, altivo. Gosta da emoção despertada pela militância na crítica musical, embora tenha se desentendido certa vez com um ex-chefe publicamente, em plena redação, a ponto de mandá-lo ir “tomar no cu” diante dos colegas. Foi a única vez que algo do tipo lhe ocorrera em toda a carreira.

O crítico estaciona numa banca na Avenida São João para comprar um novo maço de Gauloises, mesmo cigarro fumado pelo “clochard” e ídolo Serge Gainsbourg. Ali, enquanto aguarda ser atendido, vem-lhe à cabeça um pensamento impaciente. “Ainda bem que no rock não tem velho. Quer dizer: tem Charlie, Keith e Mick”, divaga o irrequieto escriba.

“Que bosta!”, exulta, “um cara de 46 anos ainda tocando numa banda de rock? Onde Charlie pensa que vai com isso? Já devia ter parado!” Copland volta a bater perna pela cidade. Um dia antes, digressa ele, entrou no hotel Hilton para acompanhar uma coletiva de imprensa que reunira as estrelas do concerto da Anistia Internacional, o “Human Rights Now!”.

Arco narrativo

“A Culpa é do Lou Reed” tem arco narrativo que se desenvolve a partir desse evento. Copland não recebeu ingresso que o colocasse no show nem o convidaram para cobri-lo. Jamais se vira tanto artista do rock internacional numa jornada nos trópicos: Sting, Bruce Springsteen, Peter Gabriel, Tracy Chapman, “prodígio-relâmpago de uma nova soul music”.

Um amigo, Clemenceau, lhe deu dois ingressos. E sugeriu: “venda um.” No entanto, pegaria mal a um jornalista musical faturar em cima da cortesia. Sabendo-se incompetente “para com o departamento feminino”, Copland achou difícil negar o pedido da groupie Simone A. Foram ao concerto que celebraria os 40 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Ao longo do romance, acompanhamos as horas que antecedem esse show. Se Copland vivia nas rebarbas da história, indo aos sebos, às coletivas de imprensa e aos bares, o mundo ao seu redor se transformava. Chet Baker fora encontrado morto na calçada de um hotel em Amsterdã, o Brasil aprovara havia pouco uma nova Constituição, a Aids freava o sexo livre.

Luiza Erundina, pelo recém-fundado PT, estava em campanha à prefeitura de São Paulo. O reggae surgia, mas ninguém ainda o achava “experiência estética séria” em outubro de 1988. A droga alterava o perfil da cidade, como a novidade do verão, o ecstasy, e a introdução da heroína, cujo abalo viera quando prenderam os músicos Arnaldo Antunes e Tony Bellotto.

Em 211 páginas, fala-se sobretudo do ebulitivo cenário musical daquele tempo, porém desfilam personagens da noite, “uma morena de pele alva”, a Marisa Monte, a chegada do banheiro unissex, o Dama Xoc. “A Culpa é do Lou Reed” é um romance histórico fluente, de prosódia pop, musical. Jotabê Medeiros, biógrafo notório, se revela romancista dos bons.

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