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Mulheres ainda são poucas na direção de filmes

Cineastas falam ao DM dos desafios enfrentados. Para elas, políticas públicas corrigiriam discrepância

Para a atriz e produtora Ana Cláudia Para, a falta de representatividade feminina contribui para a manutenção do sistema hegemônico na direção - Foto: Divulgação Para a atriz e produtora Ana Cláudia Para, a falta de representatividade feminina contribui para a manutenção do sistema hegemônico na direção - Foto: Divulgação

No mesmo mês dedicado às mulheres, devido ao 8 de março, há também um dos principais eventos do cinema mundial, o Oscar, em que a maioria das mulheres ainda só brilham no tapete vermelho apenas por mérito de suas atuações e não pela direção das produções competitivas. No audiovisual brasileiro, a realidade constata: poucas são elas que estão atrás das lentes e assumem o comando de um filme destinado ao grande público. Um levantamento feito pelo Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (Gemaa), atesta que nenhuma mulher dirigiu filmes direcionados ao grande público em 2022.

Apesar de conquistarem mais espaço no audiovisual, os dados negativos não param por aí: as mulheres são sub-representadas em cargos de destaque no mercado brasileiro. Uma análise realizada pelo Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual (OCA) e da Agência Nacional do Cinema (Ancine) mostra que em 20 filmes nacionais de maior público e renda, em cada um dos anos, de 2019 a 2023, apenas 20,9% da direção foi exercida por mulheres. Diante da baixa representatividade, a reportagem conversou com profissionais do audiovisual goiano para saber o que pensam da pouca representatividade.

Faz com que apenas as histórias sejam contadas de uma perspectiva sem o olhar feminino, consequentemente, há uma produção de filmes com enredos machistas, racistas e misóginos” Ana Azevedo, coordenadora do cineclube Luluzinha

Para a coordenadora do cineclube da Luluzinha, produtora e atriz Ana Azevedo, que assina as produções do longa, “Uma Rosa e Um Cartão, Por Favor!” (de Aline Willik e estreia em abril) e de “Araucárias”, (de Aline Willik, Rodrigo Martins e Kely Carvalho de 2024), ainda é difícil que mulheres ocupem o núcleo “duro” das produções cinematográficas (roteiro, direção e produção executiva), pois existe um imaginário de quando se pensa na direção de um filme, cria-se o estereótipo da figura masculina: homem branco e de cabelos grisalhos.

A produtora acredita que o sistema é machista e que a falta de representatividade feminina contribui para a manutenção do sistema hegemônico na direção. “Faz com que apenas as histórias sejam contadas de uma perspectiva sem o olhar feminino, consequentemente, há uma produção de filmes com enredos machistas, racistas e misóginos”, alerta.

Exceção

Essa realidade não é uma exclusividade brasileira. Pesquisa realizada pelo Centro de Estudos das Mulheres na Televisão e no Cinema da Universidade Estadual de San Diego aponta que das 250 produções de maior bilheteria, apenas 16% foram dirigidas por mulheres, os números apresentam uma queda em relação aos 18% registrados em 2022.

Quem furou a bolha da hegemonia masculina, em 2023, foi a diretora Greta Gerwig. Ela é a detentora da maior arrecadação do ano, ao dirigir o filme “Barbie”. A bilheteria lucrou US$1,44 bilhões, o que imprime uma exceção nos filmes dirigidos por mulheres nos EUA. A indústria cinematográfica de Hollywood ainda prioriza cineastas homens, não possibilitando a abertura de espaços para mulheres assumirem esses lugares.

A assessora de comunicação do Coletivo Diaspórica, fotógrafa e documentarista Amanda Costa, diretora do curta-metragem, “Acolá, um Ser-tão” (2018), e co-diretora do curta documental, “Sobre a Cabeça os Aviões” (2024), acredita que o cinema, desde seus primórdios, sempre deu destaque a produções conduzidas por homens.


		Mulheres ainda são poucas na direção de filmes
A documentarista Amanda Costa acredita que falta de mulheres na direção produz narrativas limitadas - Fotos: Divulgação. Foto: Divulgação


Costa analisa que, quando se menciona o início do cinema, lembra-se com mais facilidade dos irmãos Lumiére como os dois “inventores que fundaram o cinema”, ou os primeiros a realizarem exibições cinematográficas, que hoje se sabe que é equivocado. “Mas não saberão citar Alice Guy-Blaché, cineasta francesa pioneira, que dirigia um filme de ficção, enquanto um ano antes ‘as primeiras ‘imagens em movimento’ eram exibidas”, explica.

Para a documentarista, não precisa ir longe para constatar as exceções, pois no Brasil e em Goiás o cenário é exatamente o mesmo. Apesar dos avanços significativos nos últimos anos, com iniciativas que buscam superar a realidade, mulheres ainda enfrentam estereótipos de gênero que associam as funções de direção, roteiro e produção como tradicionalmente masculinas.

Representatividade

O último censo do Instituto Brasileiro de Geografia (IBGE), de 2022, aponta que o sexo feminino representa 51,5% do total da população, ou seja, são mais de 6 milhões de mulheres a mais que homens. No entanto, a realidade não se reflete nas salas de cinema. Apenas 20,9% dos filmes de maior público e bilheteria do país são dirigidos por mulheres. Para que a realidade reflita os números, uma das alternativas é a implantação de políticas públicas que possam mudar o cenário e as mulheres agirem em coletivo para avançarem.

A técnica de som e sound designer Cindy Faria, que atuou na obra animada, A Infância de Aninha (direção de Rosa Berardo); e no filme, O balão de Ercília, (direção de Ana Maria Cordeiro), diz que uma das alternativas para que o espaço profissional se torne equânime é a oferta de editais afirmativos que estimulem a inserção e permanência de mulheres no campo audiovisual, pois geram mais oportunidades de trabalho, mais experiência e mais janelas de exibição dos filmes. “Não é só uma questão de um filme ser feito por mulheres. Se faz necessário ainda políticas antiassédio dentro dos sets de filmagens. Também é preciso de espaços para que trabalho feito por nós sejam exibidos, trazendo olhares plurais, que saiam da visão do homem branco hétero”, critica.

Se faz necessário ainda políticas antiassédio dentro dos sets de filmagens. Também é preciso de espaços para que trabalho feito por nós sejam exibidos, trazendo olhares plurais, que saiam da visão do homem branco hétero Cindy Faria, técnica de som

Cindy ressalta que a importância da representatividade no audiovisual é fundamental, pois não é só fazer a obra, mas também ser vista, ou seja, dá visibilidade para quem está por trás da obra, já que muitas vezes as profissionais são invizibilizadas. “A representatividade não se dá somente no que vemos por meio das câmeras, mas também por quem está atrás delas, construindo as histórias que vemos. Acredito também na força coletiva, de impulsionarmos o trabalho uma das outras, seja trabalhando juntas ou prestigiando as produções feitas por nós.”, afirma.

“As leis de incentivo à cultura como, a Paulo Gustavo e a Política Nacional de Atenção Básica ou à Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB) são caminhos que tem tornado possível um maior número de mulheres ocupantes nesses cargos. Inclusive, é cada vez maior as diretoras montarem sets compostos, se não em sua totalidade, por maioria de mulheres. Dessa forma, constrói-se ambientes de trabalho mais confortáveis e respeitáveis, o que garante a excelência e a qualidade de bons filmes”, pontua Ana Azevedo.

Um exemplo da importância das políticas de incentivo à cultura é a produção cinematográfica Diaspóricas, composta por uma equipe de 25 pessoas, sendo 23 mulheres negras e todas as posições “duras” são ocupadas por mulheres, na tentativa de preencher as lacunas que o mercado cria, além de promover geração de emprego e renda entre mulheres da equipe e de empreendedores de pequenas empresas.

Realidade negra

A pesquisa realizada pela Gemaa também mostra que para além da diversidade, em relação à raça entre diretores, as oportunidades também patinaram no ano de 2022. Somente dois filmes foram dirigidos por homens negros: Medida Provisória, de Lázaro Ramos, e Marte Um, de Gabriel Martins. Sendo o último, resultado.de um edital afirmativo, que finaciou longas-metragens realizados por negras e negros.

“Quando pensamos no recorte de raça, o cenário é ainda pior. As mulheres negras sofrem mais exclusão e invisibilidade. Por conta disso, menos diretoras, o que resulta em narrativas limitadas, menos financiamento e menor reconhecimento, criando um ciclo de exclusão. Não é de hoje que vemos homens brancos conquistando reconhecimento ou ocupando espaços de poder e oferecendo oportunidades apenas para seus iguais, excluindo mulheres. Até mesmo, em níveis de instituições.”, afirma Amanda Costa.

Para Cindy, a baixa participação de mulheres negras à frente em cargos de direção é fruto de uma sociedade patriarcal e racista, que se enxerga pelo olhar do homembranco e hétero. ‘Creio que um dos exercícios que deveríamos fazer é saber narrar a si mesma. Ou seja, ter um olhar para nossos pensamentos, sentimentos, desejos. O saber se narrar, somado à força de outras mulheres, será um ponto de encontro onde se poderá ter espaço para refletir sobre a invisibilidade na indústria cinematográfica e encontrar solidariedade para nossas dificuldades. O trabalho em conjunto, e o apoio às produções feitas por mulheres fortalecem o nosso trabalho e a nossa vida”, sugere Cindy.


		Mulheres ainda são poucas na direção de filmes
A técnica de som Cindy Faria afirma que desigualdade salarial e assédio são comuns. Foto: Divulgação

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