Por: Aline Brito Lemos
O que é ser mulher? Pelas definições de dicionário temos um substantivo feminino, que designa um ser humano do sexo feminino, e que também pode ser usada para indicar um papel social ou cultural da mulher, como no caso de esposa ou mãe (tão somente?). Ao ver uma mulher que fala alto, ri alto, ocupa cargos altos, tem-se um olhar de estranhamento, questiona-se se isso é postura de mulher? Até o riso das mulheres foi moldado pelos contos de fadas, onde as princesas deveriam rir baixo e cobrindo os lábios com as mãos. Viver intensamente, ser independente, rir alto, sempre foi combatido pela sociedade, e mulheres ousadas, foram chamadas de meretrizes ou bruxas. Para essas, que não aceitaram caber nos moldes sociais de cada tempo, coube a repulsa social ou a fogueira.

Quem não conhece a cantiga infantil do “Cravo e a Rosa”? O símbolo feminino é a Rosa e o masculino o Cravo. Quando crianças brincávamos sobre a ‘historinha de amor’ desse casal. Mas se prestarmos atenção na letra, veremos que hoje ela é o retrato dos abusos e manipulações de machistas, e agora com novas vestes, utilizam-se para abusar do corpo, vida e emocional de tantas mulheres.
A narrativa do relacionamento do casal, nos faz pensar em como esse envolvimento mistura sentimentos com desentendimentos, em meio aos símbolos do romantismo, já que foi debaixo de uma sacada, assim como Romeu e Julieta fizeram suas juras de amor. Houve então uma briga e o Cravo saiu ferido. Fico aqui me perguntando: O que o Cravo fez com a Rosa? Será que a Rosa se defendeu? Todavia o que se tem certeza é que a Rosa saiu despedaçada. Na literatura romântica, despedaçada é uma alusão de muita dor e desalento.
A manipulação hoje é o novo tapa na cara das mulheres, ganhou uma expressão em inglês ‘gaslighting’, uma forma de tirar o foco da agressão realizada fazendo a vítima duvidar da sua própria percepção da realidade. A pessoa manipuladora altera os fatos, nega o que aconteceu ou apresenta uma versão distorcida dos eventos, para fazer a vítima duvidar de si mesma.
Tantas Rosas hoje estão despedaçadas, vitimizadas e ainda envolvidas emocionalmente por seus algozes. O Cravo usou de manipulação e atraiu a Rosa para perto, e ela vai o visitar. A cantiga mostra que o Cravo teve um desmaio, novamente a linguagem para o símbolo masculino não dá clareza aos fatos. Desmaiou por quê? Mas a situação feminina é muito tácita, a Rosa, pois, a chorar. Percebe-se o apelo ao emocional sobre a figura da mulher, sensível e melancólica.
Nossa ‘Rosa’ parece viver um relacionamento de dependência emocional e abusos de forma repetitiva e constante com os artifícios sedutores de manipulação do ‘Cravo’, mas as relações amorosas não precisam ser assim. Não deixemos entranhados em nossas vidas femininas mensagens românticas de que amar é sofrer.
Amar é leve, simples, amigo e companheiro. Não ilude, é honesto. Não despedaça ou faz chorar, e sim florescer nossas Rosas.
Autora: Aline Brito Lemos, graduada em História e acadêmica do curso de Direito UniAraguaia, Parceira do Observatório dos Direitos das Mulheres.