
O presidente do Paraguai, Santiago Peña, declarou que a suposta ação de espionagem conduzida pela inteligência brasileira "abre velhas feridas" nas relações entre os dois países. A afirmação foi feita durante entrevista concedida à Rádio Mitre, da Argentina.
"O Paraguai tem uma história bastante dura na região, em um momento da nossa história tivemos que enfrentar uma guerra de extermínio como foi a Guerra da Tríplice Aliança [...] o Brasil ficou em território paraguaio por quase uma década. Essas são feridas que estamos procurando curar, e este episódio infelizmente o que faz é abrir essas velhas feridas, quando o que queremos deixar para trás é essa história de ódio, de ressentimento, que vinha principalmente de fora para o Paraguai, infelizmente hoje percebemos que ainda há esse sentimento", afirmou Peña.
A fala é a primeira manifestação pública do chefe de Estado paraguaio sobre o suposto monitoramento da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) a autoridades paraguaias.
Segundo o governo brasileiro, a ação teria sido arquitetada durante a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Ainda de acordo com a atual administração federal, tão logo tomou conhecimento da operação, a Abin, sob comando do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), teria descontinuado a iniciativa.
Peña reiterou o posicionamento já externado por seu chanceler, Rubén Ramírez Lezcano, ao afirmar que a situação deve ser tratada como um tema entre Estados, e não entre governos.
"Nós claramente temos uma posição de país, e vemos isso com uma tremenda preocupação, porque não condiz com o tipo de relação que queremos propor. Queremos propor uma relação de amizade, de sócio, de amigos, que nos permita construir realmente um Mercosul mais forte", declarou.
O episódio teria ocorrido em um período sensível para as relações bilaterais, no contexto das negociações sobre o tratado da usina de Itaipu. Após a divulgação do caso, o governo paraguaio suspendeu as discussões relativas ao Anexo C do tratado.
"Primeiro saiu um comunicado jornalístico, no qual informavam que, entre março de 2022 e março de 2023, o Brasil e a agência de inteligência do Brasil, por ordem do governo, haviam aberto uma operação de espionagem contra o Paraguai com respeito às negociações do tratado de Itaipu — que efetivamente terminaram mal nesse período, o Paraguai cedeu à pressão do Brasil, que era para redução do preço da tarifa", afirmou Peña.
Em nota oficial, o governo Lula informou que a operação teria sido planejada em junho de 2022, durante o mandato de Bolsonaro.
Nos bastidores, integrantes do governo brasileiro que acompanham o tema avaliam que a postura adotada pelo Paraguai busca oferecer respostas internas diante da repercussão do caso. A crise também é vista como uma oportunidade para o país vizinho fortalecer sua posição nas negociações em torno do tratado de Itaipu.